Publicações

Nesta seção, você encontra uma seleção de publicações acadêmicas com temáticas em torno das questões entre arte e raça. Ao clicar, redirecionamos você para os sites de origem de cada uma delas.

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Reconhecimento e Divulgação da Cultura Africana e Afro-Brasileira (Estudos Sobre o Museu Afro Brasil)

Marina Soleo Funari

Universidade de São Paulo

ARTIGOS ACADÊMICOS

2011

Palavras-chave: Diáspora, arte afro, arte afro-brasileira, cultura, candomblé, Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo

Este trabalho tem como objetivo evidenciar a presença negra na formação do Brasil, focando, sobretudo, as artes e a cultura. Ao acompanhar os passos da diáspora africana, tenta-se entender como se deu a construção da imagem do negro na sociedade brasileira, as relações entre brancos e negros, conseqüências e formas de resistência. Quanto às artes, são apresentadas características da arte africana taxada de selvagem por não seguir os padrões estéticos europeus. No candomblé e outras religiões de matriz-afro é detectada sua importância quanto à preservação e acolhimento de um povo desterritorializado que precisou reinventar sua terra-mãe nas formações dos terreiros. Além disso, tais religiões contribuíram de forma relevante para dar ritmo, cor e beleza a manifestações artísticas brasileiras. Em tempo, é apresentado o Museu Afro Brasil que representa a voz do negro nos tempos atuais reunindo em um só espaço a história, arte e cultura de um povo que passa – após séculos de escravidão, discriminação e desigualdade – por uma reconstrução de sua auto-imagem.

A Criatividade nagô pela produção estética-cultural nas artes visuais: Mestre Didi e Dalton Paula

Alan Santos de Oliveira

Universidade Federal de Goiás

ARTIGOS ACADÊMICOS

2020

Palavras-chave: Criatividade, Nagô, Diversidade, Artes Visuais

A proposta deste trabalho é conhecer e apresentar uma das formas criativas da categoria nagô, difundida no Brasil pelo complexo das comunidades de Terreiros de Candomblé. Aqui tentaremos evidenciar que os processos criativos de alguns artistas visuais, muitas vezes, perpassam ou se originam diretamente desta tradição afro-brasileira. Neste artigo, traçamos uma proposta metodológica perceptiva e comparativa aliada a uma pesquisa bibliográfica e imagética que pode proporcionar a compreensão de formas culturais de criatividade quase sempre desconhecidas nos processos canônicos de ensino-aprendizagem. Portanto, o resultado desta pesquisa confere uma proposta de pluralidade no fazer criativo, introduzindo outras perspectivas de saberes, complexidade e conhecimento.

O teatro experimental do negro -: estudo da personagem negra em duas peças encenadas (1947-1951)

Christian Fernando dos Santos Moura

Universidade Estadual Paulista

DISSERTAÇÕES

2008

Palavras-chave: Teatro brasileiro, Teatro experimental, Teatro - História - Brasil, Personagens - Negros, Teatro experimental do negro, Teatro negro no Brasil

Até a década de 1940, o negro no teatro brasileiro, mesmo quando em personagens de destaque, quase sempre foi retratado por meio de certas caricaturas ou estereótipos herdados do período da escravidão. Entre o final do século XIX e começo XX, as personagens negras aparecem muitas vezes representadas em figuras dramáticas femininas como a mulata bela e sensual (reboladeira e carnal, pernóstica ou faceira), a bá (ama-de-leite geralmente negra beiçuda e gorda, confidente, chorosa e prestativa), a baiana macumbeira (em especial a vendedora de quitandas, vestida com saia rodada, bata de renda, turbante, pano-da-costa, colares e balangandãs), a preta velha (africana idosa conhecedora de segredos); em personagens masculinos, como o negrinho espertalhão (agregado da casa-grande), o bobalhão (pouco inteligente; estúpido, ignorante, imbecil); o malandro (astuto, bon vivant); o pai João (na maioria das vezes negro velho, dócil, conformado e submisso). Nos idos de 1944, surge no Rio de Janeiro um grupo de teatro formado por atores negros propostos a problematizar e revisar a tradição cênica de representação da “raça” levando aos palcos textos ligados aos temas das culturas afro-brasileiras, aos conflitos raciais e ao estigma da cor negra. Trata-se do Teatro Experimental do Negro (TEN). A presente investigação visa compreender as propostas dramatúrgicas deste grupo para a construção da personagem negra, tendo como base os estudos de Anatol Rosenfeld, Antonio Candido, Décio de Almeida Prado (2000), Renata Pallottini (1989) e Sábato Magaldi (1962), e partindo da analise de duas específicas peças do repertório do TEN, que estão reunidas na coletânea Drama para negros e prólogo para brancos, publicada em 1961. São elas: O filho pródigo (1947), de Lúcio Cardoso e Sortilégio (1951), de Abdias do Nascimento.

Identidades nas artes visuais contemporâneas: elaboração de uma possível leitura da trajetória de Ayrson Heráclito, artista visual afro-brasileiro

Nelma Cristina Silva Barbosa de Mattos

Universidade Federal da Bahia

TESES

2018

Palavras-chave: Identidade, Arte Afro-brasileira, Arte contemporânea, Artista afro-brasileiro, Heráclito, Ayrson, 1968, Arte negra – Brasil, Arte brasileira – Sec. XXI – Influências africanas

O presente trabalho elabora uma interpretação sobre a identidade afro-brasileira no meio da arte contemporânea. No desenrolar desta pesquisa, tentamos salientar algumas pistas, visando identificar, analisar e compreender o processo de construção de discursos identitários de afirmação negra na trajetória profissional do artista plástico contemporâneo rotulado pelo sistema da arte como artista afro-brasileiro. Para tal, optamos por utilizar o estudo de caso único como método, tendo como unidade-caso o artista Ayrson Heráclito, destacado atualmente na produção artística nacional e internacional, mesmo não vivendo em regiões centrais e legitimadoras do circuito econômico das obras de arte. No intuito de municiar melhor nossos argumentos, analisamos assuntos da vida profissional do artista visual de origem negra, a exemplo dos conceitos de: arte afro-brasileira, a profissão de artista, arte contemporânea, globalização e sistema da arte. Considerando as relações de poder no contexto da produção artística, refletimos ainda sobre asidentidades, cultura, raça e nação, entre outros temas necessários para compreendermos as relações no contexto da vida profissional do artista afro-brasileiro. Partimos da ideia de arte afro-brasileira, pois esta não é uma qualidade de arte que segue estilos canônicos, a exemplo de movimentos artísticos reconhecidos pela história oficial. Esse tipo de arte, por se desenvolver em um ambiente marcado por desigualdades raciais e de tradicionais hierarquias, repercute as idiossincrasias da temática identitária nacional. A identidade é uma questão relevante no âmbito da arte contemporânea, pois movimentos sociais reivindicatórios, sustentados em discursos identitários, também influenciam as narrativas visuais. A legitimação da arte atual resulta da relação de força dos agentes institucionais que integram o sistema oficial da arte e que estabelece critérios de qualidade artística segundo seus interesses. O referido mecanismo, responsável pelo que entendemos ou não como sendo arte contemporânea, tem sido obrigado a reconhecer identificações e visualidades historicamente negadas. Nosso estudo também descreve como a arte e o artista afro-brasileiros se tornaram elementos reconhecidos no círculo das artes plásticas nacionais, discorrendo sobre algumas de suas principais referências. Mas, por investigar um texto identitário, ouvimos Ayrson Heráclito e confrontamos a visão de si com a visão externa sobre ele. As análises indicaram que políticas afirmativas para artistas periféricos motivam declarações identitárias e o acesso ao ensino superior facilita a circulação ou sobrevivência do profissional da arte. A demanda por diversidade influencia a circulação das obras, empodera e reposiciona artistas e demais profissionais no meio artístico. A identidade afro-brasileira se estabelece como plataforma política. A experiência cultural negra engendra possibilidades discursivas diferentes entre si e, quando se faz presente através de um sujeito, lida com mecanismos capazes de alterar os sentidos operados pelo conjunto total de criadores.

Entre o visível e o oculto: a construção do conceito de arte afro-brasileira

Hélio Santos Menezes Neto

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2017

Palavras-chave: Arte afro-brasileira, Arte negra, Identidade negra, Museu Afro Brasil, Museu Afro-Brasileiro

Essa dissertação versa sobre a noção de arte afro-brasileira, tomando os principais estudos voltados à questão, exposições emblemáticas ao redor do tema e os contextos de fundação e expografia de duas instituições decisivas da área o Museu Afro-Brasileiro, em Salvador, e o Museu Afro Brasil, em São Paulo como meios privilegiados de acesso às disputas conceituais e políticas que a constituem. Subjaz ao entendimento geral do estudo que as dificuldades de conceituação dessa arte de muitos nomes negra, afrodescendente, afro-orientada, diaspórica, preta etc. e os distintos significados que lhe foram sendo atribuídos ao longo do século XX, se relacionam de maneira incerta, porém constante, com as ambiguidades que informam as relações raciais no Brasil. Os capítulos que compõem essa dissertação buscam se debruçar sobre esse mosaico de usos, interpretações e definições que dão corpo e sentido, ainda que instável, ao termo. Afinal, quando se faz ou se fala em arte afrobrasileira, do que se está falando e o que se está fazendo? Quando uma exposição ou museu são organizados em torno desse conceito, que critérios e entendimentos são por eles acionados e, por fim, também criados?

Imagens de Sombras

Rosana Paulino

Universidade de São Paulo

TESES

2011

Palavras-chave: Escravidão, Gravura, Marcas, Mulheres, Texto

O objetivo desta tese é construir, através de trabalhos realizados na área de poéticas visuais, uma reflexão que procure compreender como a mulher negra é vista na sociedade brasileira atual e o modo pelo qual as sombras lançadas pela escravidão sobre esta população se refletem nas negrodescendentes ainda hoje, criando e perpetuando locais simbólicos e sociais para este grupo. Este questionamento será realizado tendo como base uma investigação que transita entre diferentes manifestações artísticas, que vão da instalação à gravura, sempre procurando os meios plásticos adequados para a produção das obras que irão tratar do problema. Uma breve análise sobre os motivos que levam à opção por determinados procedimentos técnicos necessários à realização dos trabalhos, a escolha e aplicação de diferentes meios artísticos e suas adaptações ao pensamento visual também fazem parte desta investigação. É ainda intenção do trabalho pensar sobre a forma de apresentação do texto que acompanha as obras produzidas e esclarecer os motivos da eleição por uma escrita de artista para o relato apresentado em conjunto com as imagens executadas.

A invisível luz que projeta a sombra do agora: gênero, artefato e epistemologias na arte contemporânea brasileira de autoria negra

Janaina Barros Silva Viana

Universidade de São Paulo

TESES

2018

Palavras-chave: Autoria negra, gênero e artefato, arte brasileira contemporânea. epistemologias

Nesta pesquisa propõe-se o debate sobre aspectos da experimentação em artes visuais pautado no papel do autor e nos discursos traçados pelas relações de identidade e alteridade na arte contemporânea. O retorno à ideia do artista como autor e a individualização dos critérios artísticos ao longo do século XX e XXI tornam-se fundamentais para discutir visualidades em busca de redefinições a respeito das formas de protagonismos no cenário artístico como é o caso de produções associadas diretamente ao epíteto arte afro-brasileira, no sentido em que se refere a produções múltiplas em temas, linguagens, discursos e estratégias de leituras. Traça-se um breve panorama sobre uma cena de autoria negra e seus trânsitos em espaços institucionais nas últimas décadas. Além de apresentar um recorte que considera a leitura da própria pesquisa poética visual. Tem-se como interesse, refletir sobre a construção de epistemologias a partir do debate de gênero e artefato na arte contemporânea. Assim, destacam-se nesta discussão os trabalhos de Rosana Paulino, Sonia Gomes e Lidia Lisboa. O artefato aparece nesta escrita como performance e método: escrita contranarrativa, memória e gesto político. Apresenta a problemática nos lugares de fricção em relação às terminologias instauradas, às condutas poéticas e éticas na arte contemporânea e suas epistemologias. Qual a relevância em sinalizar a origem étnica de uma autoria numa dada forma poética dentro de um contexto histórico e político? Quais movimentos na confuguração de um discurso visual implicam na construção de uma leitura sobre gênero? Quais gestos operativos sinalizam essa condição? De qual maneira nós construímos os nossos olhares e nossas perspectivas nesta encruzilhada sobre a ideia de histórias pessoais e universalidades, microestruturas e macroestruturas? Quando estas autorias falam por si? Qual o lugar possível de legitimidade delas? Quais são as estratégias possíveis de reescritas de contranarrativas?

Imaginação museal e prática curatorial: a curadoria quilombista do Museu de Arte Negra

Rodrigo Rafael Gonzaga

Universidade Federal de Minas Gerais

DISSERTAÇÕES

2022

Palavras-chave: Museu de Arte Negra, Museus de arte - Administração, Negros na arte, Arte brasileira - História

Esta dissertação versa sobre o processo de construção do Museu de Arte Negra, o MAN como ferramenta política e ideológica para afirmação de uma estética e identidade afro-brasileira, entre as décadas de 1950 e 1980, justamente em um período em que se formulava o campo da curadoria e dos museus de arte no país. A investigação traz luz para um debate contemporâneo e fundamental para a atualização dos estudos acadêmicos e para situar adequadamente a importância da produção cultural, intelectual e artística de pessoas negras, na disputa dos espaços e relações de poder, nos estudos sobre teoria, história e crítica de arte e sua recepção nos museus no contexto brasileiro. A pesquisa traz a imaginação museal e a prática curatorial de Abdias Nascimento como estratégias de enfrentamento aos apagamentos das experiências negras na arte brasileira. Lança foco para a sua atuação como museólogo e curador do MAN, em um momento de grande autonomização da arte moderna e de seu agente legitimador no sistema de arte brasileiro. O MAN é compreendido aqui como instituição que produziu um discurso sócio-histórico de memória, poder e resistência, sendo centro produtor de ressignificações e contranarrativas na história da arte.

As três Igrejas dos Homens Pretos de São Paulo de Piratininga: gênese urbana e disputas territoriais

Fabricio Forganes Santos

Universidade Estadual Paulista

DISSERTAÇÕES

2021

Palavras-chave: Igrejas das Irmandades dos Homens Pretos, Negros em São Paulo, Catolicismo negro, Territórios negros, História urbana

Este trabalho investiga a presença negra no urbanismo da cidade de São Paulo a partir de três Igrejas de Homens Pretos e seus referidos entornos: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Santa Efigênia e a Igreja de São Benedito, edificadas no núcleo histórico da vila de Piratininga nos tempos coloniais e transformadas em lugar da memória negra paulistana na Primeira República. Fundadas como dispositivo de controle da população preta paulistana, cujos números aumentaram a partir do século XVIII, as igrejas construídas ou ocupadas pelos membros das irmandades negras possibilitaram ao povo preto a demarcação de seus enclaves no plano urbano da cidade, estabelecendo uma territorialidade específica a partir da apropriação estratégica da religião católica. Tendo como metodologia a investigação em documentos textuais primários, o estudo da iconografia oitocentista e a análise da cartografia produzida no arco temporal de 1775 a 1916, este trabalho desenvolve uma nova narrativa acerca dos territórios negros da cidade de São Paulo, dando ênfase à relevância do lugar onde foram implantadas as Igrejas dos Homens Pretos e ao apagamento desta memória no urbanismo paulistano. Trazendo à luz as ações engendradas pelos poderes temporal e espiritual contra os lugares do catolicismo negro paulistano, todas elas concebidas como parte de um “projeto de nação” elaborado por uma sociedade recém-republicana, esta pesquisa revela os antecedentes históricos das disputas territoriais que podem ser consideradas a gênese do processo de expulsão dos negros das áreas mais valorizadas de São Paulo – o núcleo central urbano – para as bordas suburbanas da cidade.

A cosmologia africana dos Bantu-Kongo por Bunseki Fu-Kiau: tradução negra, reflexões e diálogos a partir do Brasil

Tiganá Santana Neves Santos

Universidade de São Paulo

TESES

2019

Palavras-chave: Bantu-Kongo, Bunseki Fu-Kiau, Negritude, Sentenças em Linguagem Proverbial, Tradução

Esta pesquisa é focada nos Estudos da Tradução, em diálogo, sobretudo, com filosofias e pensares africanos, europeus, latino-americanos e diaspóricos. A partir da tradução do livro de Bunseki Fu-Kiau — Cosmologia africana dos bantu-kongo: princípios de vida e vivência –, escrito em inglês, para a língua-cultura (luso)brasileira, foi reconhecida a centralidade das sentenças em linguagem proverbial (kingana), originalmente, apresentadas pelo autor de modo bilíngue (kikongo – inglês). A análise tradutória concentrou-se em tais sentenças, e aspectos fulcrais do pensamento bantu-kongo precisaram somar-se à análise em torno do traduzir, para que se pensasse o seu processo, efetivamente, como interação. Princípios filosóficoculturais tais como o do cosmograma kongo (Dikenga dia Kongo), minika ye minienie (ondas e radiações) e o princípio V são alguns dos vetores relevantes para se pensar o sistema bantukongo, bem como para nele entrar por meio da tradução. A acepção de uma tradução negra surge do contato com as sentenças em linguagem proverbial e seu apelo já histórico por um entendimento das diversas camadas de negritude enquanto resposta legítima a um contexto de hegemonias eurocentradas e opressão, inclusive, epistemológica. Cunhou-se a ideia do tradutor- ndoki ou tradutor-feiticeiro como aquela pessoa que, efetivamente, apreende os encontros éticos enquanto articulações ou trabalho com as linguagens a partir da apreensão do real como algo constituído por partes co-pertencentes que, necessariamente, se intercomunicam. Eis a ideia kongo de totalidade: relação estabelecida entre entes, seres, coisas, imaterialidades existentes em qualquer dimensão de realidade. Percebe-se que as sentenças proverbiais, as quais, em culturas ocidentais, enquadram-se nos estudos da paremiologia, apresentam distinções importantes, no que tange ao que se conhece como provérbios. Tais distinções acontecem em termos estruturais, na sua aplicação, na sua linguagem e performance, na sua contextualização e na sua repercussão social. Por essa razão, optou-se pelo emprego da expressão sentenças em linguagem proverbial (kingana, em kikongo — língua dos bantu-kongo ou bakongo), em lugar de se utilizar o termo provérbio. No que diz respeito a culturas ocidentais, constatou-se que as sentenças em linguagem proverbial aproximam-se mais dos aforismos, diante do seu prevalente caráter filosófico. No entanto, é preciso atentar para o fato de que filosofias presentes no continente africano (bantu, yoruba, etc.) também são evocadas, a fim de que se configure uma discussão teórica mais simétrica e que, sem pretensões de universalidade ou resolução, possase contribuir para as reflexões sobre o traduzir.

Lembrança de Nhô Tim

Tiago Gualberto Morais

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2018

Palavras-chave: Arte, ficção, memória, sistema da arte, terra

Este trabalho investiga as relações entre a exploração da terra realizada pela prática da mineração e estratégias de produção de memória a partir da proposta de um diálogo artístico na comunidade do bairro Resplendor, na cidade de Igarapé-MG. Esta região de recente urbanização destaca-se, especialmente, pelas transformações da paisagem em decorrência da proximidade com grandes empreendimentos: o centro de arte contemporânea Inhotim; a economia mineradora; a instalação de presídios (Bicas I e II) e a construção de conjuntos habitacionais populares. Partindo de uma série de intervenções nesta localidade realizada em 11 de setembro de 2016, a qual possui no objeto Lembrança de Nhô Tim seu eixo central, propus a elaboração desta publicação impressa de caráter ficcional reunindo registros audiovisuais, documentos, imagens de trabalhos artísticos e depoimentos desta experiência e seus desdobramentos ao longo deste curso de mestrado. Aspira-se ampliar as compreensões artísticas contemporâneas envoltas em práticas capazes de aglutinar aspectos envolvidos com o sistema da arte, o convívio comunitário e com a invenção de memórias.

Éramos a cinza e agora somos o fogo: a estética na obra de Maxwell Alexandre

Derivaldo Andrade Junior

Universidade de São Paulo

ARTIGOS ACADÊMICOS

2019

Palavras-chave: Éramos a cinza e agora somos o fogo: a estética na obra de Maxwell Alexandre

O presente artigo discute a correlação entre conteúdo e forma dentro da arte afro-brasileira, tendo como estudo o artista Maxwell Alexandre (Rio de Janeiro, 1990). Considerando a representatividade como uma poética de afirmação presente nas obras dos artistas negros e negras, esses encontram nas artes visuais importante instrumento de reflexão social. O estudo se desenvolve a partir dos conceitos de arte afro-brasileira, analisando o caráter semântico dessa produção. Buscamos compreender a produção do artista em relação ao contexto contemporâneo em que se encontra a arte afro-brasileira e seus sujeitos. Sendo essa uma poderosa arma de força do coletivo.

Montagem fílmica e exposição: vozes negras no cubo branco da arte brasileira

Igor Moraes Simões

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

TESES

2019

Palavras-chave: Montagem fílmica, Exposição, História da Arte, Racialização

A tese que apresento parte da noção de montagem fílmica, conceito que tomo emprestado do campo do cinema, para pensar os objetos em estado de exposição como fragmentos, que articulam sentidos a partir de encontros afetivos e bélicos em constante negociação no espaço expositivo. Para construir esse lugar de onde vejo a história da arte, reúno o pensamento-filme de Marcelo Masagão e Sergei Eisenstein com os aportes de Achile Mbembe, Georges Didi-Huberman, e Giorgio Agamben, entre outros autores que me acompanham nessa empreitada. Dentro dessa perspectiva, penso as exposições como ilhas de edição que constroem histórias não previstas na História da Arte, disciplina de matriz europeia que junto com a herança colonial constituiu também os cânones daquilo que se denomina como arte brasileira. O foco da minha análise está em dois estudos de caso: as mostras Territórios: Artistas afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca (2015/2016) e Histórias Afro-Atlânticas (2018), nas quais identifico a constituição de narrativas válidas para histórias da arte, parcamente abordadas na historiografia da arte brasileira. A partir dessas exposições, aponto cruzamentos com matrizes e recorrências na história da arte brasileira, analisando objetos produzidos por sujeitos racializados e compreendendo que suas produções tendem a sofrer os mesmos efeitos que seus corpos em uma sociedade marcada pela herança colonial e pelo racismo estrutural. Escrevo a partir do reconhecimento de minha posição marcada como homem negro e historiador da arte, em uma disciplina e um campo tão alvo quanto o cubo que foi depositário dos seus modernismos. Estão aqui as vozes negras que me acompanharam nesse trabalho como artistas, professores e curadores. A tese foi construída de forma a dar conta das permanências da História da Arte como disciplina; da constante manutenção de saberes que passam por questões de raça; da montagem fílmica como ferramenta para escritas da história da arte que se não se pretendem definitivas. As exposições reposicionam a produção de homens e mulheres negras, bem como as suas histórias, em uma perspectiva que inscreve como humanos aqueles que, durante muito tempo, foram alvo não apenas de silenciamentos, mas também de uma escuta seletiva; não apenas de invisibilidade, mas de uma cegueira orquestrada. Em um tempo contemporâneo, marcado pelas disputas, assinalam-se as vozes e fazeres de mulheres e homens negros e negras de forma a redefinir os saberes constituídos.

O afro nas artes visuais – conceituação e abordagem em livros escolares de Arte, História e Cultura Afro-brasileira e Indígena

Milton Silva dos Santos

MODOS: Revista de História da Arte - Unicamp

ARTIGOS ACADÊMICOS

2022

Palavras-chave: Artes visuais, Arte afro-brasileira, Livros didáticos (Arte), Livros paradidáticos (História e Cultura Afro-brasileira e Indígena)

O texto discute a conceituação da arte visual afro-brasileira e sua abordagem em livros escolares para o ensino de Arte, História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. Também referenciada como arte negra ou arte afrodescendente, é possível antecipar que a arte afro-brasileira comporta tendências diversas sem ser propriamente um estilo. Obras e artistas visuais informados como afro-brasileiros não necessariamente são apresentados, sobretudo nos livros didáticos de Arte (PNLD 2020), como membros de um nicho particularizado das artes visuais brasileiras. Essa ressalva agradaria, supostamente, aos artistas contemporâneos contrários à adoção de um rótulo (afro) para designar a produção autoral negra.

Carybé: uma construção da imagética do candomblé baiano

Marcelo Mendes Chaves

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2012

Palavras-chave: Carybé, arte afro-brasileira, sincretismo, candomblé

A presente dissertação trata da plástica de Carybé, especificamente em suas ilustrações e produções gráficas, no período compreendido entre 1950 e 1980. A pesquisa desenvolvida sobre essa temática considera a mitologia e a ritualística de origem negro-africana iorubá como uma das poéticas do artista, aproxima sua imagética, em diferentes momentos, à manifestação do sistema religioso do candomblé Queto por uma maior visibilidade e inclusão social e procura pontuar os principais aspectos de sua construção a partir da segunda metade do século XIX. O estudo envolve a análise de quatro produções gráficas. Os trabalhos apresentados são: A Coleção Recôncavo (1951); Das Visitações da Bahia (1974); O Mural dos Orixás(1979); e Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia (1993). Inicialmente, por meio das três produções analisadas no primeiro capítulo, apresentamos o tema da pesquisa, tendo em vista a ressignificação religiosa. Com base na quarta produção, o segundo capítulo analisa a estética afro-brasileira e tem como principal teórico Mariano Carneiro da Cunha. O debate sobre a formação do candomblé Queto na Bahia amplia-se no terceiro capítulo e possibilita uma interlocução com a fotografia, literatura e música, destacando: Pierre Fatumbi Verger, Jorge Amado e Dorival Caymmi. Em uma abordagem da história da arte afro-brasileira e utilizando uma perspectiva da antropologia estética, procuramos compreender a produção de Carybé inserida na formação identitária do Brasil.

Artistas do deslocamento: cinco estudos em arte contemporânea africana

Valdir Pierote Silva

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2019

Palavras-chave: Africanos, Arte, Arte africana, Arte contemporânea, Estética

Esta dissertação, de caráter ensaístico e cartográfico, acompanha dimensões da arte contemporânea africana a partir de estudo de cinco criadores do continente africano participantes do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, realizado na cidade de São Paulo, entre 2011 e 2018. O repertório composto evidencia desafios e possibilidades para a constituição de poéticas e sensibilidades extraocidentais, reunindo criações que expressam diversas formas de deslocamento e destacam a intensa circulação entre mundos como parte importante da assinatura africana. De modo polifônico, as produções de Dan Halter, Bouchra Khalili, Bianca Baldi, Michael MacGarry e Karo Akpokiere sublinham a complexidade dos universos estéticos de criações africanas, ao mesmo tempo que questionam prescrições sobre diferenças culturais, regimes de fronteiras e narrativas hegemônicas que impulsionam a captura das imaginações. Sinalizam um campo multifacetado, em plena ebulição e construção, que se desdobra na necessidade de pluralização de referenciais, a fim de desconstruir assimetrias de poder, gerando novas experiências políticas e estéticas.

Acervos do Movimento Negro na cidade de São Paulo: um olhar para os registros da luta negra

Fernanda dos Anjos Casagrande

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2019

Palavras-chave: Acervos, Fundo Clóvis Moura, Imprensa Negra, Memória, Movimento Negro

Este trabalho dedica-se ao estudo de acervos relativos ao movimento negro na cidade de São Paulo, com a intenção de discutir a guarda e preservação de documentos referentes à luta negra a partir das especificidades da tipologia documental preservada em instituições de custódia, a saber: a coleção Jornais Negros Brasileiros – 1904-1969, pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – IEB/ USP; a coleção Imprensa Negra, presente no Arquivo Público do Estado de São Paulo; e o Fundo Clóvis Moura sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista – Cedem/ Unesp. Trata-se de uma abordagem descritiva e crítica, que pretende delinear o panorama das condições de acesso a documentos do movimento negro e perfazer a mediação aos acervos, analisando, de um lado, a constituição de fundos e coleções e, de outro, as políticas vigentes de guarda, preservação e acesso.

Arte popular brasileira na contemporaneidade através da obra de Zé Pretinho

Liliane Alfonso Pereira de Carvalho

Universidade Presbiteriana Mackenzie

DISSERTAÇÕES

2016

Palavras-chave: Arte popular, Arte brasileira, Cultura contemporaneidade, Zé Pretinho

A Arte Popular Brasileira, do mesmo modo que qualquer outra manifestação artística, passou por modificações. Este fato deu-se por diversas influências: ambientais, sociais, culturais, políticas e até mesmo pela disponibilidade de novos materiais para a criação artística. Esta pesquisa consiste em apresentar, como a arte popular modificou-se ao longo do tempo e encontrou caminhos para sua adaptação, demonstrando a importância da Arte Popular Brasileira na contemporaneidade através das obras do artista conhecido como Zé Pretinho. Artista que cria a partir do que a sociedade descarta, transcendendo diretamente com sua história pessoal e questionando acontecimentos característicos de nossa época, expressando em sua poética, críticas políticas e sociais. As obras desenvolvidas por Zé Pretinho circulam entre o popular e a contemporâneo, tendo como principais características em sua produção o uso da escrita e bonecas industrializadas. Suas obras e processo de criação interferem no cotidiano urbano, sendo classificadas pelo próprio artista como: filosofia urbana. Zé Pretinho, nos convida a conhecer o mundo criado por ele, e através de seu trabalho reconhecemos nossa própria realidade.

Museu-Terreiro: o sagrado afro-brasileiro em um ambiente museológico

Bruna Amaro dos Santos

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2018

Palavras-chave: Arte afro-brasileira, sagrado afro-brasileiro, museologia, exposição, curadoria

Este trabalho tem como objetivo, a partir das reflexões teóricas sobre arte e antropologia, realizar uma análise interpretativa sobre a construção e representação do sagrado afro-brasileiro em um dos núcleos expositivos do Museu Afro Brasil. A análise do ato expositivo e a pesquisa iconográfica em um dos núcleos do acervo permanente da instituição será utilizada como ponto de partida para pensarmos na presença do sagrado nesse ambiente, tendo como aspecto central de estudo a forma como se constrói e se manifesta o trabalho expográfico que fica a cargo, principalmente, do atual diretor e artista plástico Emanoel Araujo. Refletir sobre os artistas, objetos e símbolos presentes no núcleo Religiosidades Afro-brasileiras a partir de sua expografia nos ajudará a pontuar questões relevantes quanto aos fenômenos estético e religioso presentes em uma das categorias da arte afro-brasileira, assim como sobre as interpretações que se fazem desse encontro no espaço museológico pelos públicos que o frequentam, um campo ainda de abordagens latentes.

A construção da identidade afrodescendente por meio das artes visuais contemporâneas: estudos de produções e de poéticas

Renata Aparecida Felinto dos Santos

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

TESES

2016

Palavras-chave: Artes visuais, Diáspora, Afrodescendente, Identidade

Esta proposta de pesquisa de doutorado possui alguns pontos de investigação, sendo três deles os mais pertinentes. O primeiro é uma breve revisão da presença de artistas afrodescendentes na História da Arte do Brasil pretendendo tanto relembrar e revelar personagens quanto observar como as Artes Visuais produzidas por artistas afrodescendentes foram observadas, registradas e nomeadas ao longo dos séculos por pesquisadores, críticos e historiadores. O segundo propõe a reflexão acerca da transposição e do emprego do termo “afro-brasileiro” ou “afro-brasileira” dos Estados Unidos da América para o Brasil na área de Artes Visuais, com fins de categorização da produção de artistas afrodescendentes, que possuem ou não pesquisas temáticas, conceituais, estéticas e/ou poéticas voltadas às questões relacionadas à história do segmento afrodescendente da população. Por fim, o terceiro se presta a apresentar e a analisar as produções de artistas afrodescendentes brasileiros e estadunidenses que demonstraram interesse por elaborar obras cujas visualidades e estéticas estivessem em diálogo com as questões da diáspora africana ou mesmo, de forma simples, com suas origens africanas. A apresentação e análise dessas obras foram realizadas de forma cronológica observando-se as biografias, as formações, as temáticas e as pesquisas de interesses dos artistas selecionados, configurando, dessa forma, um corpus de artistas afrodescendentes cujo conjunto de atributos inerentes às suas obras constituiriam uma arte afro-brasileira ou afro-americana, ou ainda, o que seria mais interessante e pertinente do ponto de vista da discussão aqui iniciada, arte afrodescendente ou afrodiaspórica.

Galeria & senzala: a (im)pertinência da presença negra nas artes no Brasil

Adriana de Oliveira Silva

Universidade de São Paulo

TESES

2018

Palavras-chave: Antropologia da experiência, Antropologia da performance, Arte afro-brasileira, Presença, Raça

Diversos são os modos como artistas negros lançam mão (ou não) de uma herança afro-brasileira em experiências individuais e coletivas para se (a)firmarem como pessoas e artistas. Essa questão se tornou mais decisiva num momento em que uma parcela da sociedade brasileira escancara seu repúdio ao empoderamento negro resultante de ações populares e governamentais, tais como a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em sala de aula, a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) em 2003, a instituição do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, e a decisão pela constitucionalidade das cotas raciais pelo Superior Tribunal Federal, em 2012. Mais recentemente, em São Paulo, a atenção se voltou para a presença negra nas artes, devido à controvérsia em torno do uso de blackface numa peça que seria encenada num importante centro cultural da capital. A peça foi cancelada e o repúdio à prática do blackface gerou um debate sobre a representação do negro nas artes no país, escavando antigos mal-entendidos sobre mestiçagem e racismo no Brasil. Tendo este contexto explosivo como pano de fundo, explorou-se, nesta pesquisa, a experiência de artistas negros da atualidade. Os relatos autobiográficos de sua inserção no mundo das artes revelam, entre outras coisas, as estratégias desses artistas para escapar do racismo e, no limite, passar-se por branco mesmo quando se afirmam como negros. Como mulher e pesquisadora negra, percebi-me enredada em ambiguidades semelhantes às dos artistas e curadores com quem convivi. Consequentemente, o pacto etnográfico entre mim e meus interlocutores de pesquisa baseou-se no enfrentamento de uma longa história de racismo e da necessidade de tornar-se o que se é negro. Tendo como aporte teórico uma antropologia da experiência e da performance, a pesquisa mostrou que a arte é fundamental no processo de tornar-se negro, tanto para o artista quanto para a sociedade, por pelo menos duas razões: 1) por mostrar o óbvio que mãos negras não servem apenas para a lidar com fluídos corporais com que mãos brancas não querem lidar; 2) por mostrar o que a sociedade em geral deseja manter oculto, isto é, a contribuição de cada cidadão brasileiro na criação de um país violento e desigual a maioria de nós ainda se conforma em se ver como bom mestiço, senão branco, e, assim, denunciar o racismo ao mesmo tempo em que se mantém racista. É contra isso, no entanto, que artistas negros objetificam o próprio corpo em performances: o cabelo vira Bombril, o corpo sangra, é coberto por mãos/ imagens brancas ou é abatido pela violência, como no caso de Priscila Rezende, Michelle Mattiuzzi, Olyvia Bynum, Dalton Paula, Peter de Brito, Flávio Cerqueira e Sidney Amaral. É contra isso que tecem e esculpem tetas que denunciam antes e hoje ainda alimentam o mundo inteiro sem alimentam os próprios filhos, como Lidia Lisbôa. É contra isso também que fazem ebós, sacudimentos e assentamentos, como Moisés Patrício, Ayrson Heráclito e Rosana Paulino. E, também, obras em que a beleza e a delicadeza remetem a conhecimentos ancestrais, que, ainda por preconceito racial, são menosprezadas como arte indigente, mas, por outro lado, também passaram a ser reconhecidas como Arte com maiúscula, sem que a cor das mãos de quem as produziu seja embranquecida, como no caso de Sônia Gomes. Ao narrar seus dilemas e conquistas, esses artistas mostram as ambiguidades de pensar alteridade e universalidade considerando raça como um lugar de experiência, que marca a sua presença e obra no mundo.

Imaginação museal e prática curatorial: a curadoria quilombista do Museu de Arte Negra

Rodrigo Rafael Gonzaga

Universidade Federal de Minas Gerais

DISSERTAÇÕES

2022

Palavras-chave: Museus de arte, arte afro-brasileira, curadoria, estética negra, Abdias Nascimento, história da arte afro-brasileira

Esta dissertação versa sobre o processo de construção do Museu de Arte Negra, o MAN como ferramenta política e ideológica para afirmação de uma estética e identidade afro-brasileira, entre as décadas de 1950 e 1980, justamente em um período em que se formulava o campo da curadoria e dos museus de arte no país. A investigação traz luz para um debate contemporâneo e fundamental para a atualização dos estudos acadêmicos e para situar adequadamente a importância da produção cultural, intelectual e artística de pessoas negras, na disputa dos espaços e relações de poder, nos estudos sobre teoria, história e crítica de arte e sua recepção nos museus no contexto brasileiro. A pesquisa traz a imaginação museal e a prática curatorial de Abdias Nascimento como estratégias de enfrentamento aos apagamentos das experiências negras na arte brasileira. Lança foco para a sua atuação como museólogo e curador do MAN, em um momento de grande autonomização da arte moderna e de seu agente legitimador no sistema de arte brasileiro. O MAN é compreendido aqui como instituição que produziu um discurso sócio-histórico de memória, poder e resistência, sendo centro produtor de ressignificações e contranarrativas na história da arte.

O Fenômeno da Nagotização e as Macumbarias no Carnaval: o apagamento dos Ewè-Fon no desfile de 2003 do G.R.E.S. Unidos da Tijuca

Rennan Elias de Oliveira Carmo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

MONOGRAFIAS

2019

Palavras-chave: candomblé, carnaval, Ewè-Fon, nagotização, Fongbè

Este trabalho tem como objetivo geral debruçar o olhar sobre os modos de antagonização das matrizes culturais dos povos Ewè-Fon – atual país Benim – em detrimento das narrativas yorubanas – atual Nigéria. Como objetivo específico, a pesquisa consiste num estudo de caso ao analisar os discursos que sustentaram esta antagonização presentes no desfile de carnaval realizado em 2003 do G.R.E.S. Unidos da Tijuca. Além da utilização de acadêmicos estudiosos da diáspora, utilizam-se os ensinamentos da oralitura transpassados nas casas de candomblé de raíz Jeje Mahina, cuja língua rezada é o Fongbè. Pretende-se assim gerar um processo revisionista no estudo de matrizes africanas e observar as inflexões que a Nagotização gerou no imaginário popular, distorcendo a memória e a relação de pertença das quais diverses negres foram privades.

Bispo e Adéagbo: da desconstrução da crítica à adição e fusão de pensamento em forma de arte

Carlos Antônio Alonso

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2016

Palavras-chave: Arte africana, Arte popular, Arthur Bispo do Rosário, Georges Adéagbo, Ready made

Esta pesquisa teve no debate teórico sobre ready made, pop art e arte conceitual, sua motivação inicial, surgida da crítica ao fechamento intelectual e estético presente nos cânones exigidos pelos currículos escolares no Brasil. As implicações destes conceitos são discutidas em paralelo à elaboração de uma visão crítica das classificações europeias e norte-americanas como matrizes adequadas para a compreensão da criação de artistas como Arthur Bispo do Rosário, Brasil (1919-1988) e de Georges Adéagbo, Benin (1942). De forma complementar, o percurso do pesquisador-artista participa do processo de compreensão e análise. O foco recaia de um lado no material e matéria dos objetos do cotidiano, utilizados na obra de Arthur Bispo do Rosário e nos itinerários das obras de Georges Adéagbo, artista autodidata que expõe suas ideias e narrativas em forma de objetos escultóricos, ocupações de espaços públicos. Eles têm ainda em comum, as metodologias e os processos que espelham conceitos próprios e arqueologias de saberes ligados às suas próprias culturas e sociedades, além de constante construção de suas identidades. Esses processos de pensamento envolvem a ação mental (conceituação ou projeto mental) e a execução das ideias que se reflete em seus trabalhos de arte. O interesse principal de ambos está na análise do cotidiano representado por objetos de origem endógena e exógena que são fundidos e geram aspectos diferentes à materialidade, à narrativa, à desconstrução do próprio objeto como fenômeno (logia) da metamorfose a ele impressa, retirado de seu espaço de significação original, resignificado e ambientado no espaço-ser da arte como pensamento a partir do objeto de Bispo e, na auto-arqueologia inversa de Adéagbo.

A representação do corpo humano na arte Iorubá

Edmilson Quirino dos Reis

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2014

Palavras-chave: África, Arte Arte africana, corpo, História da arte, História da arte africana

A dissertação tem como objeto de pesquisa obras de arte tradicionais de origem africana do grupo étnico Iorubá onde se encontra representado o corpo humano. Busco elucidar as causas sociais, históricas, filosóficas que possibilitaram as produções escultóricas artísticas que apresentam geralmente formas antropóides.

Aparições e homens negros : masculinidades, racismo e a construção por meio do simbólico

Waleff Dias Caridade

Universidade de Brasília

DISSERTAÇÕES

2021

Palavras-chave: Aparições, Cidade, Perspectiva afrocentrada e decolonial, Performance ART, Racismo

Essa dissertação tem como objetivo identificar similaridades nas aparições, conceito e prática elaborados pela artista sul-africana Lhola Amira, em que, problematiza desde a criação e exportação da conceituação e prática da performance art, e o processo psicoterapêutico clínico, conforme o diálogo da perspectiva afrocentrada e do pensamento decolonial. Por meio do encontro-conversa com os artistas Abiniel João Nascimento e Geovanni Lima (ES), e nossas produções poéticas individuais, a hipótese dessa pesquisa é que por meio dos símbolos apresentados por Exu: o tempo, a caminhada, o simbólico e os espaços, se identifica similares e rememora métodos perecíveis. Diferente do processo psicoterapêutico clínico, no qual, o sujeito é percebido de maneira individualizada e por um olhar treinado que embranquece as subjetividades negras, em contrapartida, as aparições propõem a partir de uma ótica de elaboração coletiva do trauma colonial, lidar com as feridas que sucedem desse sistema e resgatar formas de cuidado que não são acessíveis para todos/as, visto que, a cidade é utilizada como campo para causar atrito, violência e opressão cotidianamente a corpos de cores específicas e que são associados como inferiores.

Transgredir para educar: das “mulatas” de Di Cavalcanti às propostas pedagógicas engajadas e decoloniais

Mirella Aparecida dos Santos Maria

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

DISSERTAÇÕES

2018

Palavras-chave: Pedagogia engajada, pedagogia decolonial, mulheres negras, imaginário, representação

Por meio deste trabalho propõe-se uma análise pedagógica a partir das concepções engajada de bell hooks e decolonial de Catherine Walsh para a obra Mulatas (1927) do artista visual Di Cavalcanti. Além disso, complementa-se com visualidades positivas para a representação de mulheres negras nas artes visuais.

Construindo o (auto) exílio: trajetória de Abdias do Nascimento nos Estados Unidos, 1968-1981

Tulio Augusto Samuel Custodio

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2011

Palavras-chave: Abdias do Nascimento, Autoexílio, Autoimagem, Cultura negra, Pan-africanismo

A presente dissertação trata sobre a trajetória de Abdias do Nascimento durante o período de seu autoexílio nos Estados Unidos, entre 1968 e 1981. Na pesquisa, verificamos a hipótese que preconiza ser esse momento decisivo para mudança da autoimagem do autor, que sai do Brasil como artista e retorna como liderança do ativismo negro internacional. Investigamos os fatos e experiências do autor no período, passando pelas atividades, redes pessoais e sua participação em diversos congressos e seminários internacionais. A pesquisa é delineada em dois eixos: discurso e imagem. Discurso envolve a abordagem de Nascimento acerca de cultura negra e sua crítica à democracia racial, que articulariam uma interlocução com elementos conceituais transnacionais, presentes no discurso negro no âmbito internacional. Em relação à imagem, tentamos abordar como o autor, a partir de sua discurso ideológico e atuação, reconstrói sua autoimagem, projetando em seu retorno a posição de liderança negra do ativismo internacional e de pensador da diáspora. Para tanto, analisamos as obras artísticas e políticas do período, bem como elementos anteriores tratados pela literatura sociológica, para evidenciar as formas dessa reconstrução.

Museu afro Brasil no contexto da diáspora : dimensões contra-hegemônicas das artes e culturas negras

Nelson Fernando Inocencio da Silva

Universidade de Brasília

TESES

2013

Palavras-chave: Museus de arte, Cultura afro-brasileira, Diáspora africana

O presente trabalho é um exercício que implica na investigação acerca dos processos individual e coletivo que culminaram na fundação do Museu Afro Brasil em 2004. Além de um estudo que lida com os antecedentes que pavimentaram o caminho rumo à consolidação de um projeto construído para superar as invisibilidades da população negra no país, por meio de um modo artístico de ver, a pesquisa possui outra ambição: compreender o conceito que dá sentido às mostras de longa duração exibidas na instituição mencionada. Estes são os dois eixos desta tese que se ocupa de questões alusivas à representação da alteridadeafrodescendente no ambiente específico do museu em estudo. As exposições de artes e culturas afro-brasileiras patrocinadas por museus locais são conhecidas e, muitas das vezes, elas expressam problemáticos pontos de vista de tais instituições. Evitando essencialismos é possível dizer que existem diferenças significativas entre as identidades criadas para um grupo de pessoas e as identidades construídaspor elas mesmas, enquanto sujeitos da própria história.Seguindo esta perspectiva o estudo, que toma o Museu Afro Brasil como referência, pode ajudar no alcance de uma compreensão. O percurso se inicia com uma abordagem sobre Emanoel Araújo, a pessoa que concebeu o Museu e trabalhou por mais de duas décadas atrás para torná-lo realidade. Posteriormente, o contexto histórico é analisado, considerando as demandas sociais que contribuem para fortalecer a proposta da instituição em destaque. Por fim, a visita pelas exposições de longa duração serve como um convite na procura de pistas que levem a entender o discurso visual adotado pelo Diretor/ Curador do Museu Afro Brasil. O Objetivo é o de saber como tais representações visuais estão relacionadas com a conjuntura atual na qual as políticas públicas para valorizar o legado da diáspora africana constituem uma estratégia contra hegemônica face às persistentes e antiquadas ideias coloniais.

A configuração da curadoria de arte afro-brasileira de Emanoel Araujo

Marcelo de Salete Souza

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2009

Palavras-chave: Cultura afro-brasileira, museologia, arte afro-brasileira, arte contemporânea, exposições de arte, artes plásticas, curadoria museológica

Este trabalho objetiva realizar um estudo sobre a curadoria de Emanoel Araujo, artista, colecionador e curador baiano. Focaremos compreender os interesses do curador em suas mostras sobre arte afro-brasileira. A atividade de Araujo acontece dentro do museu de arte e tem como objetivo último o ato expositivo. A sua maneira de ordenar as obras de arte no espaço cria uma narrativa sobre arte afro-brasileira que poucas vezes foi abordada dentro do museu. Perceber como é efetivada essa história, bem como quais são as consequências dela para a história da arte no Brasil, é uma tarefa urgente. O universo da exposição de Araujo, como um espaço privilegiado de debate e confronto, é de grande relevância para compreender como se efetiva a visualidade e representação do negro em toda a sociedade brasileira. Nesse sentido, a explanação sobre as principais exposições de Araujo no Brasil traz problemas e interrogações relevantes para se pensar a arte afro-brasileira e a arte brasileira como um todo. A curadoria da arte afro-brasileira de Araujo é ainda um campo de poucas abordagens acadêmicas. Pontuar como começou essa ação, como se efetivou e os seus desdobramentos dentro da história da arte é o nosso propósito.

Breves costuras a partir de Rosana Paulino e as vozes do sul

Catia Paranhos Martins

Universidade Federal da Grande Dourados

ARTIGOS ACADÊMICOS

2019

Palavras-chave: Corpo, Arte, Cartografia.

Neste ensaio apresento um breve diálogo entre algumas obras da artista Rosana Paulino e as vozes do Sul. Penso a artista como “arquivo vivo”, inspirada pela interpretação feita por Maria A. Antonacci, cuja poética utiliza-se, em especial, da “memória ancorada em corpos negros”. O que não se pode ver e dizer? Quem ainda não é vista e ouvida? Quais vidas estão nos bastidores, invisíveis e não podem compor o ato? O que dizem estas pessoas – mulheres negras – através de silenciamentos e cegueiras? Interesso-me por aceitar a provocação das obras mais do que construir possíveis respostas. Dentre tantas aprendizagens e afetações, destaco o corpo como território tanto pessoal quanto político, estratégia utilizada pela artista para (re)afirmar que mulheres, corpos feminizados e/ou racializados são sujeitos desejantes e que gestam mundos outros. É o corpo e sua memória como suportes de criação de existências e experimentações que questionam o projeto colonial-capitalista.

Artistas do deslocamento: cinco estudos em arte contemporânea africana

Valdir Pierote Silva

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2019

Palavras-chave: Africanos, Arte, Arte africana, Arte contemporânea, Estética

Esta dissertação, de caráter ensaístico e cartográfico, acompanha dimensões da arte contemporânea africana a partir de estudo de cinco criadores do continente africano participantes do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, realizado na cidade de São Paulo, entre 2011 e 2018. O repertório composto evidencia desafios e possibilidades para a constituição de poéticas e sensibilidades extraocidentais, reunindo criações que expressam diversas formas de deslocamento e destacam a intensa circulação entre mundos como parte importante da assinatura africana. De modo polifônico, as produções de Dan Halter, Bouchra Khalili, Bianca Baldi, Michael MacGarry e Karo Akpokiere sublinham a complexidade dos universos estéticos de criações africanas, ao mesmo tempo que questionam prescrições sobre diferenças culturais, regimes de fronteiras e narrativas hegemônicas que impulsionam a captura das imaginações. Sinalizam um campo multifacetado, em plena ebulição e construção, que se desdobra na necessidade de pluralização de referenciais, a fim de desconstruir assimetrias de poder, gerando novas experiências políticas e estéticas.

A CONSTRUÇÃO DE UMA CATEGORIA ARTE AFROBRASILEIRA: UM ESTUDO DA TRAJETÓRIA ARTÍSTICA DE MESTRE DIDI

GABRIELA DA SILVA DEZIDÉRIO

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

DISSERTAÇÕES

2015

Este trabalho possui como objetivo central refletir sobre a construção da categoria arte afrobrasileira enquanto fenômeno social em paralelo a construção da trajetória artística de um artista específico, Deoscoredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi. E analisar a forma como se dá o processo de legitimação de artistas inseridos nesta categoria, e também como se configuram as relações destes artistas afro-brasileiros com o campo artístico brasileiro num sentido macro. Outro aspecto de interesse para este estudo é a particularidade da obra de Mestre Didi, que mescla arte e religião, tendo o próprio artista exercido plenamente os papéis de artista e sacerdote, e que o levou a fazer desta interseção de campos sua poética. Refletir sobre como o aspecto religioso que permeia toda a sua produção artística vai influenciar nestas relações então mencionadas é também um dos propósitos deste trabalho. Para isto será
traçado um breve panorama histórico da arte afro-brasileira em paralelo a análise de dados biográficos do artista em questão, considerando sua trajetória artística e pessoal, assim como dados de sua genealogia que auxiliem na compreensão da constituição deste universo mítico representado em suas obras. Em última instância propõe-se uma análise sucinta de sua obra.

Terreiro Contemporâneo: O negro pela perspectiva do visitante do Museu Afro Brasil

Denise dos Santos Rodrigues

Universidade de São Paulo

ARTIGOS ACADÊMICOS

2015

Palavras-chave: Museus, Museu Afro Brasil, cultura afro-brasileira, perspectivas do visitante, grupo focal em museus

Este artigo se propõe a investigar se os objetivos que regem o Plano Museológico do Museu Afro Brasil estão sendo percebidos pelos visitantes, a fim de analisar a percepção desse frequentador sobre a participação do negro na formação da cultura e da sociedade brasileira. Para tanto, utilizou-se de pesquisa bibliográfica, sobretudo aquela referente aos conceitos teóricos sobre os museus e sobre a apropriação africana e afro-brasileira no espaço urbano, aliada à pesquisa qualitativa realizada através de grupo focal e observação participante, aplicados durante a visita ao museu em agosto de 2015. Por fim, na análise dos resultados, juntamente com as considerações finais, são apresentados o olhar dos visitantes diante da experiência e conhecimentos adquiridos durante a visitação, a discussão sobre a temática afro e como isso foi compreendido por eles.

Modernismos Africanos nas Bienais de São Paulo (1951-1961)

Luciara dos Santos Ribeiro

Universidade Federal de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2019

Palavras-chave: África, Bienal Internacional de São Paulo, Modernismos africanos, Arte Moderna, Arte Africana

Esta pesquisa tem por objetivo investigar a participação de delegações africanas naBienal de Artes de São Paulo durante o período de 1951 a 1961. Por meio dadocumentação localizada durante pesquisas no Acervo Histórico Wanda Svevo,verificamos que produtores e artistas africanos estiveram em diálogo com a mostradesde sua primeira edição. Com este estudo, pretende-se projetar um olhar para osmodernismos africanos que participaram da Bienal de São Paulo, tendo como foco a primeira década da mostra. Apresentam-se tais relações, a partir da documentaçãolocalizada, analisando e destacando alguns dos agentes que colaboraram para tais participações. Primeiramente, realiza-se um estudo da primeira Bienal e da sua relaçãocom os modernismos, com o colecionismo das artes africanas e com estudos dasmesmas. Um segundo momento dedica-se a analisar as participações dos dois primeiros países africanos a integrarem a mostra: a União Sul-Africana (África do Sul) e o Egito.Encerra-se com um estudo da VI Bienal e as suas relações com a geopolítica das artes eda história da África. Os resultados apresentados constituem um esforço de organizaruma leitura crítica do início da Bienal de São Paulo, por meio dos modernismosafricanos.

O Museu e a Identidade Brasileira: Museu Afro Brasil

Isabela Gatti Pereira Rodrigues

Universidade de São Paulo

ARTIGOS ACADÊMICOS

2012

Palavras-chave: Museu Afro Brasil, identidade, identidade brasileira, identidade afro, museu, expografia, Cultura negra

Este artigo propõe uma análise parcial a respeito de museus e da construção da identidade brasileira, investigando, em uma instituição museológica, propostas de rompimento com a visão eurocêntrica e colonizadora que permeia a identidade nacional. Com a leitura de Zygmunt Bauman, Darcy Ribeiro, Renato Ortiz e Aníbal Quijano, alguns conceitos como espacialidade, expografia, conteúdo e público de museus são analisados junto a uma pesquisa de campo sobre o Museu Afro Brasil. A escolha deste museu foi determinada pela especificidade de seu tema e de seu acervo em diálogo constante com sua missão: ser espaço de desvelamento da cultura negra no Brasil.

Tornar-se imensurável: o mito negro brasileiro e as estéticas macumbeiras na clínica da efemeridade

Castiel Vitorino Brasileiro

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2021

Palavras-chave: Exú, Encruzilhada, Efemeridade, Raça, Clínica, Cura

Este trabalho, que se situa na linha de pesquisa “Orientações Contemporâneas na Psicologia Clínica”, investiga os processos de racialização negra no contexto brasileiro (tornar-se negra/o). Tais processos são, aqui, caracterizados como uma mitologia moderna, diante da qual apresento modos de romper com os limites vitais que lhe são próprios, limites estes que, no Brasil, se organizam sob agendas raciais a partir da ideia de negritude e dos processos de enegrecimento. A partir de uma revisão bibliográfica e utilizando métodos cartográficos de pesquisa, recorro a fundamentos de civilizações Bantu – que, no Brasil, compõe sistemas filosóficos que organizam religiosidades como umbandas, cabulas, omoloko, reinados, quimbandas, candomblés –, para elaborar conceitos e movimentos como Estéticas Macumbeiras, Clínica da Efemeridade, cura, Memórias das Transfigurações. Exú, tomado aqui como conceito central, presentifica-se como bússola ética que nos mostra os caminhos de criação e sustentação naquilo que denomino de “Torna-se Imensurável”. O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação São Paulo – FUNDASP- São Paulo, Brasil.

Abre a roda minha gente que o batuque é diferente: Tiririca, Capoeira e Samba em São Paulo, 1900-1970

Filipe Amado

Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÕES

2019

Palavras-chave: Capoeira, Cultura Popular, Samba, São Paulo, Tiririca

Este trabalho procura refletir sobre práticas culturais negras presentes na cidade de São Paulo no início e meados do século XX, sua relação com as comunidades negras, com a sociedade e com os modelos de urbanidade existentes no período. Partimos de uma história da capoeira na cidade de São Paulo, que deita raízes no século XIX, e que se mostra presente de forma intensa nas primeiras décadas do século XX. A capoeira, junto com o samba, são culturas praticadas por indivíduos que se relacionam intensamente com a cidade e suas transformações, fazendo parte das interações urbanas e também sofrendo com uma política de segregação e repressão. É a partir das dinâmicas urbanas do século XX e dos contados e aproximações entre o samba e a capoeira que se forma a tiririca, uma manifestação negra paulista, que representa uma transformação sofrida pela capoeira, adquirindo ludicidade e musicalidade através da batucada e versos do samba. A tiririca fez parte do cotidiano da cidade, sendo praticada em diversas regiões e se aproximando de instituições populares negras, como times de futebol de várzea e cordões carnavalescos.

Cadernos de África: corporeidades e narrativas negras pelas vias das encruzilhadas

Leandro de Souza Rocha

Universidade Federal Fluminense

DISSERTAÇÕES

2020

Palavras-chave: Paulo Nazareth, Cadernos de África, Encruzilhada

Essa pesquisa tem por objetivo a reflexão teórica e crítica a respeito do projeto Cadernos de África, trabalho em processo do artista Paulo Nazareth. A análise explorou as relações entre corporeidades negras e narrativas visuais a partir de um exame de seus panfletos, cadernos de projeto, fotografias e vídeos que permitem interpretar os processos de criação de Paulo Nazareth como sujeito de arte e de sua produção narrativa fundamentada em caracteres oriundos das culturas africanas e afro-brasileiras. O posicionamento teórico e metodológico privilegia uma abordagem afro-referenciada e a noção de encruzilhada é elencada e desenvolvida como principal categoria de análise. Refletimos sobre a presença de elementos estruturantes de uma cosmovisão africana em Cadernos de África, sendo eles o tempo, a palavra, a ancestralidade e o mito como propriedades que orientam o trabalho do artista e que são ritualizados ao longo do seu percurso de criação. São esses também os elementos que dão ritmo à narrativa do trabalho.

Baobá: Ayrson Heráclito e a Árvore da Vida

Renata Simoni Homem de Carvalho

Universidade de Brasília

TESES

2018

Palavras-chave: Heráclito, Ayrson, 1968, crítica e interpretação Arte, aspectos sociológicos, Arte afro-brasileira, Candomblé, Diáspora africana, Identidade

Esta tese trata da pesquisa acerca do trabalho de um importante artista brasileiro chamado Ayrson Heráclito, cuja obra traz religiosidade, história, cultura e herança afro para discutir profundas questões da nossa sociedade. O artista trabalha com performance, fotografia, vídeo e instalação, e incorpora em sua obra elementos culturais de forte teor simbólico como o açúcar, o dendê e a carne de charque. Heráclito olha para o passado para falar de diáspora negra, escravidão e sonhos de liberdade; olha para o presente buscando os significados de identidade e pertencimento; olha para o futuro quebrando paradigmas, gerando mudanças e esperança. A análise de suas obras nos permite descontruir um pensamento hegemônico com bases no colonialismo, que tende a ser destruído e recriado em todo o mundo, como parte da corrente do hemisfério sul que reivindica seu lugar de fala e de construção do conhecimento. Heráclito é praticante do candomblé e acredita que a arte tem um potencial ritualístico e curativo, capaz de transmutar dores e sanar feridas do passado. Sua obra gera, de fato, consciência espiritual e política ao mesmo tempo. Veremos que sua poética além de contemplativa é reveladora e transformadora.

Territórios negros em Porto Alegre/RS (1800 – 1970): geografia histórica da presença negra no espaço urbano

Daniele Machado Vieira

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

DISSERTAÇÕES

2017

Palavras-chave: Cartografia, Geografia histórica, Porto Alegre (RS), Territórios negros, Transformações urbanas

A presença da população negra é conhecida na cidade de Porto Alegre/RS desde o período colonial. Contudo, ela não compõe as narrativas oficiais sobre a evolução da cidade, acarretando a invisibilização e o esquecimento dos espaços outrora ocupados pela população negra. Areal da Baronesa, Colônia Africana, Ilhota, Parque da Redenção e Bacia do Mont’Serrat são alguns destes territórios negros. O território negro é aqui concebido como espaço físico e simbólico configurado a partir da função (de habitação, trabalho, lazer etc.) e/ou de práticas culturais (como o batuque, o carnaval, a religiosidade etc.) exercidas por mulheres e homens negros, cuja significação é construída a partir da presença negra e/ou das atividades desenvolvidas por estes. Além disso, a falta de uma representação visual, por meio de mapas, faz com estes territórios acabem ficando soltos no espaço imaginado da cidade, isso quando sua presença não é apagada da representação que se tem sobre este espaço. Com o objetivo de elaborar uma cartografia dos espaços ocupados pela população negra na cidade ao longo dos tempos recorreu-se à análise histórico-geográfica, a partir do cruzamento de fontes diversas (jornais, documentos históricos, fotografias, crônicas, narrativas), conforme metodologia proposta pelo geógrafo Maurício de Abreu. Inicialmente localizados na área Central, os territórios negros foram sofrendo, ao longo do tempo, um paulatino deslocamento para as bordas da cidade. Verificou-se que o desmantelamento e deslocamento destes territórios está relacionado a momentos de profundas transformações do espaço urbano: i) início da modernização do espaço central (virada do século XIX para o XX); ii) remodelação do Centro (1924-1937); iii) grandes obras no entorno do Centro: canalização do Arroio Dilúvio e aterro da Praia de Belas (1941-1970). A construção de uma cartografia implica na atualização da memória que se tem sobre espaços outrora característicos da presença negra.

Olhos D’Água, Cuerpos en el Mundo: La Literatura de Conceição Evaristo para la Reinvención de la Historia

Arthur Coutinho Gonçalves Bomfim

Universidade Complutense de Madrid

DISSERTAÇÕES

2024

Palavras-chave: Literatura negro-brasileña, Conceição Evaristo, amefricanidad, cultura afrodiaspórica, estadio del espejo, psicoanálisis, memoria

Esta pesquisa propõe uma análise do conto Olhos D’Água, do livro homônimo escrito por Conceição Evaristo (2016). Grande expoente da literatura contemporânea brasileira, Evaristo demarca em suas obras as múltiplas questões sociais que afetam a população de origem afro-brasileira e, por meio de sua escrita, busca resgatar a valorização da cultura e da ancestralidade afrodiaspórica. O conto é constituído por uma narrativa intensamente marcada por um questionamento, que percorre vivências acentuadas pelas dimensões de raça, classe e gênero, sobre a cor esquecida dos olhos maternos da personagem narradora e protagonista. O texto evoca elementos que provocam um estreitamento entre a literatura negro-brasileira a uma memória ficcional, à mitologia yorubá e a uma perspectiva contra-hegemônica acerca da condição hitorico-social que atravessa as existências de mulheres negras no Brasil. Fragmentos do conto permitem uma análise repleta de correlações com a teoria psicoanalítica e uma elaboração social, histórica e cultural brasileira para pensar o contexto refletido na obra de Conceição Evaristo, sua poética e seu método de escrevivência. Para esse fim, serão abordados, nesta pesquisa, as contribuições teóricas de Lélia Gonzalez, de Rita Segato, de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, além de uma série de pensadores da cultura, da história e da sociedade no Brasil.

Ilê aiyê: interações entre arte, educação e cultura afro-brasileira

Daniele Santos Santana

Universidade de Brasília

DISSERTAÇÕES

2018

Palavras-chave: Negros, história, cultura Ilê Aiyê, Cultura afro-brasileira, Cultura africana

O presente estudo tem por objetivo investigar os projetos educacionais desenvolvidos pela Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, tendo em vista entender a importância da valorização da cultura afro-brasileira na sala de aula e destacar as propostas pedagógicas apresentadas nos Cadernos de Educação que se consolidam como recurso pedagógico fundamental para o trabalho de professores e professoras que abordam as temáticas relacionadas à história e cultura africana e afro-brasileira. Precedentemente, apresenta-se um breve panorama do ensino de Arte no Brasil, o qual evidencia a tentativa de invisibilidade das culturas indígena e africana no campo educacional, a partir da colonização do país, e como as tendências educacionais do século XX propõem uma nova abordagem acerca do tema, através de propostas que visam a diversidade cultural na educação. O caminho percorrido envolve também uma pesquisa histórica da trajetória do bloco afro Ilê Aiyê, desde a sua criação, em 1974, na cidade de Salvador, Bahia, e sua consolidação enquanto instituição de ensino formal, com projetos de cunho pedagógico que culminou na criação do PEP (Projetos de Extensão Pedagógica), o qual engloba a Escola Mãe Hilda, a Banda Erê, a Escola Profissionalizante e os Cadernos de Educação do Ilê Aiyê. Estes últimos, resultado das atividades ligadas aos temas do carnaval apresentados pelo Ilê, são aqui apresentados em algumas edições e utilizados como recurso didático principal para o ensino da cultura africana e afro-brasileira em sala de aula, no contexto formal de educação, na realização de atividades artísticopedagógicas desenvolvidas com estudantes de uma escola pública, cursistas das últimas séries do ensino fundamental da educação básica. Foram realizados três encontros nos quais os temas propostos e ilustrações presentes nos Cadernos de Educação do Ilê Aiyê (volumes VII, X, XII, XVI, XVII e XXI) serviram de suporte para o desenvolvimento das atividades artístico-pedagógicas, que contaram com aulas expositivas, audição e interpretação de músicas do Ilê. Em paralelo, a investigação também analisa a relação entre as práticas propostas, via Cadernos de Educação, e as diretrizes e legislações curriculares que buscam assegurar a pluralidade cultural na educação básica, tais como os Temas Transversais, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-brasileira nas escolas. Como resultado da pesquisa, produções visuais realizadas pelo/as participantes e debates sobre os procedimentos realizados serviram de arcabouço para o desenvolvimento das interpretações de dados sobre as atividades propostas e as categorias de análise que envolvem o processo de ensino e aprendizagem e o ensino de Arte, tais como a educação afrocentrada e a representação do negro nas artes visuais.

Que “Afro” é esse no Afro Brasil? A concepção curatorial no Museu Afro Brasil – Parque Ibirapuera, São Paulo/SP

Carla Brito Sousa Ribeiro

Universidade Federal de Santa Catarina

DISSERTAÇÕES

2018

Palavras-chave: Museu Afro Brasil, imagem, afro-brasileiro, afroidentidade

Esta pesquisa se orientou pela abordagem etnográfica do Museu Afro Brasil, tendo em vista levantar aspectos que permitissem refletir sobre o conceito e as ideias de “afro” da instituição. O conceito, que norteia a concepção curatorial no Afro Brasil, se revelou como um imaginário próprio, composto pelo arranjo de objetos de toda a sorte de categorias, que junto a instalações e elementos de cenografia, comunicam o “afro” ao público de uma maneira aberta. O acompanhamento da rotina institucional também possibilitou perceber que este “afro” transcende a narrativa curatorial, pois é evidenciado na visão política dos colaboradores do Museu que atuam na comunicação com o público visitante, principalmente através de seus educadores. Remontar os
percursos, tanto do idealizador e realizador do Afro Brasil, Emanoel Araújo, quanto dos conceitos que fizeram parte da concepção do Museu no formato das exposições que o precederam, auxiliou a pensar a institucionalização do “afro” e os modos como essa noção vem sendo moldada atualmente através de um processo criativo conjunto.