A obra aborda o luto e a ausência da paternidade a partir da vivência pessoal do artista, mas que facilmente pode gerar conexão em outras pessoas que viveram experiência similar. Perder o pai ainda na infância significa também ser privado de viver determinadas experiências que costumam marcar a vida adulta, como compartilhar conversas, falar sobre amores ou simplesmente dividir uma cerveja juntos.
O artista transforma essa falta em reflexão sobre os marcos que surgem ao longo da vida de quem cresce sem a presença do pai. Entre eles, o momento em que se percebe que o filho já viveu mais do que o próprio pai, atingindo uma idade que ele nunca chegou a alcançar. Esse pensamento cria uma ruptura no tempo e provoca uma série de questionamentos que permanecem sem resposta.
A obra se constrói nessa dualidade entre ser homem e, ao mesmo tempo, ainda ocupar o lugar de menino diante da ausência. O uso do cartaz com tipografia infantil remete a um trabalho escolar, evocando a infância interrompida e a tentativa de elaborar sentimentos complexos com ferramentas simples.
A presença do espelho introduz a dimensão do presente, refletindo quem se é hoje e sugerindo um encontro impossível. Ao tomar consciência de que “já viveu mais que o pai”, surgem perguntas que não podem ser respondidas: vivi mais, mas consegui ser melhor que ele? Ele se orgulharia do que está vendo?
Entre memória, ausência e projeção, a obra se estabelece como um espaço de confronto íntimo, onde a experiência individual se abre para uma reflexão universal sobre perda, identidade e passagem do tempo.