Série Períodos de tempo variáveis, 2020, da artista soupixo. Foto: Divulgação

CONVERSA COM ARTISTA: SOUPIXO

por Deri Andrade

20 de janeiro de 2021

ENTREVISTA
Conversas

Série Períodos de tempo variáveis, 2020, da artista soupixo. Foto: Divulgação

Artista do Cariri cearense, soupixo tem realizado um trabalho que reflete sobre corpo, memória, gênero e raça. A partir de imagens da família, cria colagens que trançam composições, multiplicando imagens e transformando-as em sonhos não realizados, em angústias que muitas vezes não consegue nomear. Assim como outras/es/os artistas de sua geração, materializa suas produções em temas e sentimentos contemporâneos que flertam com o momento atual. Nesta conversa com o Projeto Afro, soupixo conta como se iniciou nas artes, fala sobre as colagens que desenvolve e a cena que acontece na região em que nasceu, vive e trabalha.

Série Simetria do Belo, da artista soupixo. Foto: Divulgação

Deri Andrade (Projeto Afro): Você é uma jovem artista que tem se destacado por um trabalho realizado no Cariri cearense. Poderia falar um pouco sobre de que forma se deu seu início nas artes?

soupixo: Comecei com o grande clichê de “desde criança eu desenhava”, por isso brinco que minha vida artística começou na infância como desenhista profissional e bordadeira comercial, porque de certa forma foi isso que me aproximou da arte. O bordado foi algo mais tarde, mas ainda na infância, quando eu e minha irmã vimos uma prima que fazia ponto cruz em uma colcha de cama e falamos que a gente também sabia fazer aquilo. E, realmente, sabíamos, aprendemos só de olhar. Daí, minha mãe conhecia uma mulher que vendia caminhos de mesa e conseguiu alguns para a gente bordar, para o dinheiro ser nosso. E só isso pra gente bastava, porque não tínhamos muitas condições. E poder ter nosso próprio dinheiro, mesmo que pouco, era incrível só de imaginar. Mas, essa relação com o bordado e o desenho acabou junto com a infância, engolida por outras urgências e opressões. Estudar para se tornar alguém na vida era mais importante.

Fiz o ensino médio em uma escola profissionalizante, que tinha de tudo para me distanciar cada vez mais do universo da arte, mas por coincidência estagiei em um local que trabalhava com programação cultural, o que me fez conhecer um pouco mais da cena cultural do Cariri especificamente das cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Ainda no ensino médio, um antigo professor de arte que também era artista me convidou para participar de um projeto que envolvia xilogravura, intervenção urbana e literatura de cordel. Daí, só fui me envolvendo cada vez mais com a arte e, próximo de terminar meus estudos para ingressar no ensino superior, descobri que existia um curso na Universidade Regional do Cariri de Licenciatura em Artes Visuais, nem sabia o que era direito, mas fui lá, fiz o vestibular e passei.

Continuei no universo da xilo, com o grupo XICRA e outros artistas desse meio. E com o tempo fui me descobrindo e redescobrindo nesse meio, voltei a fazer muitas coisas que havia abandonado, mas também fui desistindo de várias outras coisas, porque minha experiência com a universidade foi bastante traumática, permeada por opressões. Isso não é novidade na vida de uma mulher cis preta na sociedade em que vivemos, mas hoje percebo que passei muito tempo, nesse período da universidade, congelada nas certezas dos outros do que eu poderia e do que eu não poderia ser. E essas certezas eram sempre de que eu não era artista e nunca seria. Nem professora nem pesquisadora, viveria para sempre nas sombras dos outros. Mas, tô aqui… artista vivona. E com a memória sempre ativa.

DA: Em seu trabalho, observamos reflexões sobre corpo, memória, gênero e raça. Como esses temas se materializam na sua produção artística?

soupixo: Eu acho que quando a sociedade nos cala por tanto tempo e não temos dinheiro para fazer terapia, buscamos outras formas de externalizar tudo o que nos consome. Eu encontrei voz na arte. E descobri que não era voz e sim vozes, a minha e das que vieram antes de mim, além das que ainda estão aqui presentes e que compartilham das mesmas angústias e sonhos.

Série Imagememória, 2020, da artista soupixo. Pastel oleoso, fotografia e colagem digital. Foto: Divulgação

DA: A colagem também aparece com grande força em peças que sintetizam os temas citados acima. A partir da construção de novas narrativas, seu trabalho desenvolve-se. Poderia falar um pouco sobre essas composições?

soupixo: A colagem também foi algo que começou logo no início. Na real, com a fotografia. Tenho fotos de infância até certo período, porque minha família passou por muitos perrengues, o que tornou inviável esse registro que nos acompanhasse junto com o tempo. Minha vó, por exemplo, só tem um retrato e algumas 3×4, porque no seu caso, naquela época, nem todos tinham acesso a essas coisas. Então revisitar esses poucos desajeitados álbuns, sempre guardados em lugares diferentes quase como se fosse uma necessidade de esconder ou um medo de perder, era como um ritual de refrescamento da memória. De tempos em tempos eu vou lá, olho todas as fotografias e me sinto tomada pelo mesmo sentimento que não sei explicar. É como se eu voltasse naquele tempo e também é como se eu nunca tivesse visto aquelas fotos antes.

Depois de muitos anos, minha mãe comprou uma câmera compacta de segunda mão, e aí eu me apaixonei, comecei a fotografar tudo. Fazia muito autorretrato também, o que acredito ter sido um ponto importante na descoberta de quem eu era, comecei a ver uma beleza que nunca tinha pensado que eu teria. Como muitas crianças pretas, não cresci com muitas referências de belezas pretes, por isso nunca me achei bonita e sempre, até hoje, tenho questões com o meu corpo. Mas, nesse tempo que descobri a fotografia, comecei a me ver de outra forma.

Logo depois surgiu minha série Simetria do Belo, que foram os primeiros trabalhos que fiz com fotografia e colagem digital. Quando minha mãe comprou nosso primeiro computador, eu insisti muito, pois precisava para fazer meus trabalhos da escola e tals (eu fazia informática no curso profissionalizante do ensino médio), mas nós não tínhamos dinheiro para internet. Só um tempo depois conseguimos aqueles modem uó… Mas, antes disso, só tinha internet na escola, então eu baixava programas de edição e levava para casa e fazia muitas colagens e gifs, essa virou minha diversão. Passava horas só editando imagens.

Quando ingressei na universidade, com um pouco mais de tempo e mais recursos, o Simetria do Belo foi surgindo. E aí como eu falei, ao longo da minha relação com a arte eu fui deixando muitas coisas de lado, como o desenho e o bordado, chegou um tempo que eu tinha certeza que não sabia mais desenhar e a fotografia e a colagem eram técnicas mais “fáceis” e poderiam me validar como artista. Pensava isso como meio de tentar me encaixar, de alguma forma, em algum lugar, porque como eu disse sempre tinha alguém pra dizer que eu não era ninguém, que não fazia nada e seria sempre assim. Deixei a colagem de lado por um tempo também e retomei no meu TCC com as colagens que fiz com as fotografias de família e, principalmente, com as poucas da minha vó que foi a protagonista nesse trabalho. Vi na colagem digital um meio de multiplicar essas imagens e transformá-las em sonhos não realizados, e angústias que muitas vezes não conseguimos nomeá-las. E consegui reviver todo o bem estar que sentia no início, quando brincava com os programas de edição, porque não tinha internet para fazer outras coisas.

Desejo reprimido, da artista soupixo. Livro de artista, colagem digital. Foto: Divulgação

DA: Seu trabalho também tem uma forte relação com o meio urbano na criação de obras que flertam com a rua. Como você observa essa produção artística brasileira que surge fora das paredes de museus e galerias?

soupixo: Acho justa essa pergunta, mas também acho um pouco engraçada, porque tenho certeza que todas as pessoas acham que eu sou uma artista da rua por causa do meu nome. Mas, a verdade é que eu tenho medo da rua. Eu acho massa a arte urbana e flerto muito com ela, mas não sou uma artista urbana. Sempre vi esse caminho como a forma mais democrática de compartilhamento da arte e sempre quis estar aí. Mas minha relação com a rua não é muito legal. Eu, como uma pessoa preta, que tenho consciência racial desde criança (sempre soube que era preta e como as pessoas me tratavam por ser assim) nunca fui bem vinda à rua. E também sou um mulher cis, que só minha família e parte da sociedade me permitiu ser criança. A outra parte, homens cis, nunca me viu como criança. Então, desde que me entendo por gente, sempre que estive na rua na maioria das vezes acompanhada por minha mãe, me sentia violada em vários sentidos. Desde CRIANÇA, sem saber nada relacionado a sexo, por onde eu passava os homens me olhavam da cabeça aos pés, para as minhas partes intimas como se eu estivesse despida, soltavam o “morena bonita”, “ô morena”, buzinavam para mim, me chamavam para entrar no carro. E eu era só uma criança. E isso não mudou na adolescência nem na vida adulta. Então, a rua se tornou esse lugar violento que eu não me sinto nem um pouco confortável de estar nele, mesmo que seja acompanhada por muitas pessoas. Mas todos esses traumas não me fizeram desistir de ocupar esse espaço, principalmente por meio da arte.

Fiz poucas coisas e gostaria de fazer muito mais. E por muito tempo esse era o único lugar que eu poderia ocupar, porque não conseguia me ver em museus e galerias. Só via gente branca e com grana nesses lugares, então na minha cabeça era óbvio que esse não era meu lugar. E de uns tempos para cá tenho procurado ocupar cada vez mais, porque somos muitas, mas ainda somos poucas nestes espaços. Acho que talvez ainda demore para superar essa relação com a rua, mas nunca desisti. Ainda a quero ocupar de diversas formas, porque ainda acredito nesse espaço como O Lugar onde temos que fazer acontecer e transformá-lo num local menos hostil. E eu soupixo não porque sou pixadora. Eu sou pixo.

Série Períodos de tempo variáveis, 2020, da artista soupixo. Foto: Divulgação

DA: E a atual produção contemporânea brasileira que ocorre fora dos eixos Sul-Sudeste, você tem acompanhado? Além disso, poderia comentar essa produção no Cariri cearense?

soupixo: Acompanho, mas não sou super ligada. Tô mais ligada aqui na minha região, mesmo, que tem uma galerona fazendo acontecer. A nossa região é bem conhecida pela cultura popular, o que é massa, mas às vezes acho que “super valorizam” somente esse meio e esquecem as outras. Coloquei entre aspas a super valorização da cultura popular porque também existem várias questões que só quem tá por perto vê. Como mestre e mestras da cultura vivendo de formas precárias, lutando por anos para conseguir seus títulos que para eles e elas têm um significado muito grande e nada. Mas, pra fora as autoridades públicas vendem a imagem do berço da cultura, que tá tudo bem, tudo bom.

Agora, imagina nós, as contemporâneas… Todo aquele rolê que escutamos durante toda a vida que “tem que estudar para ser alguém na vida”, quando crescemos e escolhemos ser artistas esse roteiro muda para “tem que sair daqui pra ser vista”. E quem não pode, e quem não quer, tem que ralar muito e ver se aguenta ser artista pro resto da vida. Eu acho que eu nem sou a pessoa certa pra falar sobre isso, porque tô sempre em conflito com esse universo das artes, mas por enquanto tô resistindo e muito bem acompanhada. Então, vou aproveitar esse rolê pra citar nomes das que caminham comigo e das que estão nessa mesma caminhada de ser artista no interior. Minhes amiges artistas Maria Macedo, Suzana Carneiro, Nayra Mayara, Vita da Silva, Isaias Almeida, Eliana Amorim, Lívio, Charles Lessa, Bixacariri, Wandeallyson Landim, Jaque Rodrigues, Williana Silva, GAB Indja, Marsonilia Duarte, CHS. E outra galera que também tá fazendo acontecer por aqui.. Bixódia Lab. de Criação, Cantando Marias, Renata Felinto, Projeto bixas, Grupo Ninho, Fluxo Marginal, Bordadinha, Coletivo Xanas recitam Xanas, Coletivo Iamís Kariris, Coletivo Karetas com Prekito,  Vandalas, Projeto Navalha, Quebrada Cultural e etc… Se eu tiver esquecido alguém, pelo amor de Deyse me perdoem. Taí uma ruma de nomes de artistes que o mundo deveria conhecer.