Abdias Nascimento, O ovo primordial (detalhe), 1972, acrílica sobre cartolina. Coleção Instituto Inhotim. Foto: Divulgação

ABDIAS NASCIMENTO E SEU PROJETO MUSEU DE ARTE NEGRA GANHAM EXPOSIÇÃO NO INHOTIM

por Projeto Afro

4 de dezembro de 2021

CURTAS
Exposição

Abdias Nascimento, O ovo primordial (detalhe), 1972, acrílica sobre cartolina. Coleção Instituto Inhotim. Foto: Divulgação

Em parceria com o IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), o Instituo Inhotim realiza a exposição “Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra” entre dezembro de 2021, ano que marca os 10 anos da perda do artista e intelectual, e dezembro de 2023. O projeto de longa duração será dividido em quatro atos, sendo o primeiro marcado pela mostra “Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra”, com abertura em 04.12.

Abdias Nascimento, “Celebração a Legba”, 1996, acrílica sobre tela. Coleção particular Ricardo Motta

Poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, pan-africanista, parlamentar e fundador do IPEAFRO, Abdias Nascimento (1914-2011) teve uma longa trajetória trilhada no ativismo e na luta contra o racismo. Foi idealizar do Teatro Experimental do Negro, que formou as bases do MAN, um “museu voltado para o futuro”, que nasceu com o objetivo de “recolher e divulgar a obra de artistas negros, sem distinção de gênero, escola ou tendência estética, promovendo-se, assim, a documentação de sua criatividade, estimulando sua imaginação e invenção na ampla faixa de expressão plástica”, como bem explicou Abdias Nascimento em entrevista para o extinto Correio da Manhã (1968, acervo IPEAFRO).

Nesse primeiro ato do projeto no Inhotim, a obra de Tunga estará em contato com a de Abdias e de artistas do MAN. Em entrevista para o jornal Correio da Manhã, em 1968, Tunga, então com 15 anos, afirmava que a arte negra exercia grande influência em sua obra. “Para mim, a arte negra foi a primeira a romper os grilhões das saturadas imagens renascentistas”, disse o jovem que, na época, já doava trabalhos à coleção do Museu. Tunga cresceu convivendo com Abdias. Ele era filho de Gerardo Mello Mourão, poeta que, na década de 1930, fez parte da Santa Hermandad Orquídea ao lado de Abdias Nascimento e outros escritores.

Abdias Nascimento, Invocação noturna ao poeta Gerardo Mello Mourão: Oxóssi, 1972, acrílica sobre tela. Coleção Museu de Arte Negra – IPEAFRO (à esquerda). Tunga, sem título, 1967, tinta plástica sobre tela. Coleção Instituto Inhotim (à direita)

Na exposição, essa relação aparece desde em obras pintadas por Abdias que homenageiam o poeta, até as próprias gravuras de Tunga que integram a coleção. Além de simbologias encontradas nas produções dos dois artistas, como a imagem da serpente e a ideia de eternidade. “Amigos de longa data, Tunga e Abdias abrem espaço para o Museu de Arte Negra, e para os próximos atos desse projeto. Cosmogonias, tradição e ancestralidade conduzem os caminhos neste encontro de mundos”, diz Douglas de Freitas, curador do Inhotim.

Museu de Arte Negra

Desde os anos 1940, Abdias Nascimento e seus companheiros do Teatro Experimental do Negro (TEN) trabalhavam com a proposta de valorização social do negro e da cultura afro-brasileira por meio da arte e da educação. O TEN buscava delinear um novo estilo estético e dramatúrgico, e assim lançava as bases para a fundação do Museu de Arte Negra (MAN).

Foi o TEN que, em 1950, no Rio de Janeiro, organizou o 1o Congresso do Negro Brasileiro, em que se discutiu a “estética da negritude” e modos de visibilização e valorização da produção de artistas negros e daqueles que lidavam com a representação da cultura negra em seus trabalhos. Nesse sentido, a plenária do Congresso aprovou uma resolução sobre a necessidade de um museu de arte negra. O TEN assumiu o projeto, e assim nasceu o MAN.

“Naquela altura, ainda influenciada pela primeira onda modernista, que reafirmava o mito dos ‘benefícios da miscigenação’ das três raças (branca, indígena e negra) para a formação da sociedade brasileira, a representação do negro nos museus tradicionais aparecia em segundo plano e, em sua maioria, mediada pelo olhar do branco. Assim, era preciso romper com esse sistema representacional e tornar visível ao mundo a riqueza da cultura negra para o campo da Arte”, explica Deri Andrade, curador assistente do Inhotim e idealizador do Projeto Afro.

A coleção Museu de Arte Negra ganhou forma sendo composta por pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, dentre outras, numa pluralidade de suportes e técnicas. “Da curadoria dessa coleção e da convivência com o artista Sebastião Januário em um pequeno apartamento no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, surgiu a ‘aventura pictórica’ de Abdias Nascimento (assim ele se referiu à sua própria produção artística)”, afirma Julio Menezes Silva, coordenador do projeto Museu de Arte Negra do IPEAFRO no ambiente virtual. “Atualmente uma profusão de artistas nacionais e internacionais integram o acervo do MAN-IPEAFRO, contribuindo para o enriquecimento das narrativas curatoriais sobre a produção artística negra”, comenta Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias Nascimento e co-fundadora do IPEAFRO.

Serviço: 

Exposição Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra – Primeiro ato: Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra

De 4 de dezembro de 2021 a 10 de abril de 2022

Local: Galeria Mata | Instituto Inhotim

Visitação: de quinta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30

Ingressos: R$ 22 (meia) e R$ 44 (inteira) no Sympla 

Entrada gratuita na última sexta-feira de cada mês, exceto feriados, mediante retirada prévia através do Sympla

*Moradores de Brumadinho cadastrados no programa Nosso Inhotim e Amigos do Inhotim também possuem entrada franca