Série Fazendo as amizades certas, 2017, de Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Acrílica sobre tela, 60 x 60 cm. Foto: divulgação.

CONVERSA COM ARTISTA: RODRIGO GONÇALVES (GILBEF) E OS PODERES HUMANOS

por Deri Andrade

22 de julho de 2020

ENTREVISTA
Conversas

Série Fazendo as amizades certas, 2017, de Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Acrílica sobre tela, 60 x 60 cm. Foto: divulgação.

Com uma prática artística diretamente ligada ao seu cotidiano, às relações interpessoais e ao trabalho que desenvolve como terapeuta ocupacional, o artista alagoano Rodrigo Gonçalves, o Gilbef, acredita nos poderes naturais dos seres humanos como fontes inesgotáveis de subsistência. Gilbef interessa-se pela troca, pelo afeto e pelo respeito, o que considera essencial para a vida. Formado em Terapia Ocupacional (UNCISAL) com especialização em Arte-educação, vem atuando com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade no Centro Especializado em Reabilitação (CERII) Apae – Maceió e com jovens no Laboratório Metuia Núcleo Universidade Federal da Paraíba – UFPB/Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas – UNCISAL. Suas obras são concebidas em diferentes linguagens, com intervenções estético-políticas compostas por atos apresentados em exposições nos últimos 10 anos. Nesta conversa com o Projeto Afro, o artista fala dos manifestos propostos por sua obra e do elo intrínseco com sua formação profissional.

O artista Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Foto: divulgação.

Deri Andrade (Projeto Afro): Você vem desenvolvendo um manifesto, do qual chama de Manifesto Poderes Humanos (2015-), em uma série de trabalhos e ações ao longo dos últimos anos. Pode falar mais sobre esse conceito?

RG: O Manifesto Poderes Humanos surge da minha necessidade de dialogar com as pessoas sobre o que eu sinto em relação às nossas vidas humanas. Nós precisamos de verdades todos os dias, é o que o manifesto quer dialogar, é muito simples. Todos nós temos poderes, o sim e o não são poderes, a escolha de poder fazer algo ou não fazer algo são outros poderes. Entre viver e morrer existem muitos poderes humanos e eles são manifestados durante nossa vida.

Nem todas as pessoas têm acesso a todos esses poderes, mesmo eles estando dentro de todos nós, é o caso de algumas situações de vida, como as pessoas que estão passando por alguma situação de risco ou vulnerabilidade social, como as populações indígenas, as pessoas negras, a população LGBTQI+ e as crianças que vivem em um país como o Brasil.

Falar de arte é falar sobre o nosso cotidiano, sobre a vida acontecendo, e nesses contextos de vida existem vidas humanas, existes relações humanas. E o ser humano é algo complexo, nós somos lindos, nós somos diversos, não existe um ser humano igual ao outro e, nesse mundo de diferenças, as diferenças dos outros são muito importantes para nossas existências, a diferença do outro engrandece nossas vidas. É sobre isso, e muito mais além, que fala o Manifesto Poderes Humanos.

Me misturando com as cosias certas, 2017, de Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Painel de lona. Foto: Matheus Arruda.

DA: Observamos uma vontade sua em realizar projetos com diferentes tipos de materiais e propostas. Esses processos são chamados por você de (des)construções corporais e plásticas que falam sobre a negritude, as relações humanas e seus poderes. Você pode contar um pouco sobre a relação desses três temas, principalmente no contexto atual, inseridos na sua prática artística?

RG: Essas temáticas se atravessam em profundidade e não falam somente sobre mim. Eu sou um homem adulto, alagoano, negro e gay. Eu sobrevivo em uma cidade brasileira onde o índice de mortalidade de homens negros é a mais alta do Brasil, esses índices falam rasteiramente de forma quantitativa sobre essas vidas negras que foram encerradas de forma muito violenta.

Nós alagoanos tivemos episódios relevantes na construção histórica da cultura brasileira, com o Quilombo dos Palmares, onde viveram grandes guerreiros e guerreiras negras da nossa história, como Ganga Zumba, Aqualtune, Dandara e o grande Zumbi dos Palmares que teve sua cabeça brutalmente cortada e exposta em praça pública. Também temos o simbólico episódio dos índios Caetés, que são considerados canibalistas pelos historiadores, e devoraram um dos primeiros bispos colonizadores do Brasil, entre outros que foram comidos. Mais à frente na história, esses homens estrangeiros e colonizadores iriam eliminar e destruir toda essa população nativa de Alagoas.

Mas, temos outro episódio de muito terror vivenciado pelas populações de terreiros que foi o Quebra de Xangô, o Quebra de 1912, um evento de intolerância religiosa com articulações de muita violência, como a destruição dos terreiros e a perseguição de pessoas que eram de religiões de matriz africana na cidade. Esses contextos reais de vida me levam a pensar, olhando meu histórico familiar, meu passado e meu pertencimento ancestral, eu vou começar a falar de qualidade de vida?

Eu reconheço que tenho alguns privilégios sociais, mas para as pessoas negras que vivem em Alagoas não é fácil, nunca foi. Esse diálogo que eu tenho aqui com vocês atravessam de inúmeras formas a minha prática artística e se faz presente no meu cotidiano, nas minhas memórias e no contexto real de vida. Com isso, eu me questiono SOBRE VIVER, COMO SOBREVIVER EM MACEIÓ? COMO?

Como sobreviver em Maceió, da série Manifesto poderes humanos (2015-), de Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Lambe-lambe. Foto: divulgação.

DA: Na série Fazendo as amizades certas (2015-), que contempla boa parte da sua produção, autorretratos, pinturas e objetos são realizados a partir de um conjunto de troca, afeto e respeito, por exemplo, com a natureza. De que forma o Manifesto citado acima acontece também nessa série?

RG: Fazendo as amizades certas é uma construção poética-crítica sobre as relações humanas e não humanas. As amizades certas acontecem durante o encontro com uma pessoa, ou várias, e também no encontro com as cosias que existem, às vezes com as coisas que não existem, ou ainda não conseguimos explicar. Eu acredito no poder que as pessoas têm, acho que isso vem ficando exposto neste nosso diálogo, e nós vivemos em coletivo, vivemos em grupos sociais e desempenhamos papéis sociais.

Nesses contextos de sociabilidades, nós fazemos amizades com as pessoas e isso é nossa essência de viver em sociedade. Sempre vai existir um ser humano que vai precisar do outro, todos nós temos isso. Assim como o ar é importante para nossa sobrevivência, um olhar, um toque, ouvir o outro ou sentir é muito importante, a relação humana proporciona a sobrevivência. Ironicamente, sem perceber, nos afastamos da nossa natureza, a natureza que existe das coisas, a nossa natureza humana e a natureza que traz nossa sobrevivência. Eu gosto muito de plantas e animas, eu também gosto muito das pessoas. Fazendo as amizades certas é sobre isso, relacionar-se com todas as coisas que nos faz bem, nos traz felicidade. A minha família são meus amigos.

Eu escrevi um pequeno poema que fala um pouco sobre Fazendo as amizades certas:

a gente pensa que muda

é feito planta que é muda

ou uma pessoa que não pode falar,

muda?

a raiz cresce e finca ali.

não sei o que é melhor,

muda no vaso em qualquer lugar,

ou muda crescendo na terra.

(gilbef, 2016)

Exposição “Ato 1: poderes humanos”, individual de Rodrigo Gonçalves (Gilbef) realizada em 2017 no Museu da Imagem e do Som de Alagoas – MISA, Maceió, AL. Foto: Divulgação.

DA: Observamos em seu currículo a realização de diversas exposições, desde 2010, em Maceió (AL), onde você nasceu, vive e trabalha. Atuando fora do eixo Rio-São Paulo, você articula seus projetos e realiza suas pesquisas. Como você analisa essa relação de acessos entre as regiões do país?

RG: Eu não consigo fazer uma análise mais aprofundada sobre isso no momento. É muito complexo pensar essa relação nacional numa perspectiva do campo das artes dentro dos contextos regionais ou dos eixos “principais” de circulação de arte. No Nordeste, nós temos um circuito de arte fechado, elitista, que não é diferente do nacional. Porém, acontecem produções culturais e de diálogos muito profundos e independentes fora desse grande eixo. Eu consigo observar no meu contexto social, e no de outros artistas que estão próximos a mim, até mesmo em diálogos virtuais, como o sistema das artes é perverso, cheio de armadilhas e é desfavorável para gente-artista.

Planejando meus planos, de Rodrigo Gonçalves (Gilbef), na exposição “Ato 3: corpo aberto” realizada em 2018 na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL. Foto: divulgação.

DA: E como tem acompanhado a produção artística contemporânea em Alagoas?

RG: Alagoas tem muitos artistas maravilhosos e maravilhosas, muitos e muitas, isso é incrível, nós temos uma riqueza cultural inquestionável. Porém, dentro de todas essas belezas nós temos instituições de arte muito perversas, pessoas perversas; o preconceito, a discriminação e o racismo são reais. Eu entendo que as artes que estão dentro dessas instituições têm que ser para o povo, para a população. Tem que existir diálogo e acessibilidade de todas as formas. Eu tive experiência com quase todas as instituições públicas e privadas de arte em Maceió, em todos esses espaços eu passei por experiências violentas e situações de grande desrespeito.

Quando eu observo essas minhas experiências com os espaços de arte e gestores institucionais, eu olho para a história da cidade onde eu nasci e vivo e vejo essas pessoas exercitando os mesmos mecanismos sociais perversos que vem sendo executados violentamente com as pessoas durante séculos, como as questões de classe social, sexualidade, gênero e a negritude. Algumas questões das relações humanas não mudam e a arte que eu crio vem dialogando sobre esses problemas complexos da cidade.

Tapas na cara: Entre o perverso e subversivo, 2015, de Rodrigo Gonçalves (Gilbef). Técnica mista – série de máscaras. Acervo Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL. Foto: divulgação.

DA: Você se formou em Terapia Ocupacional. Como seu trabalho artístico perpassa esse campo? De que maneira suas frentes de atuação “interferem” igualmente nas suas obras?

RG: Eu sou terapeuta ocupacional e gosto de me afirmar assim, muito mais do que artista. As/os terapeutas ocupacionais do Brasil trabalham com a parte da população que está mais fragilizada, vivenciando alguma situação de risco ou vulnerabilidade social. Desde que eu entrei na classe trabalhadora como terapeuta ocupacional, eu trabalho em serviços públicos como o SUS. Eu amo trabalhar dentro dessa perspectiva.

Eu atuo com abordagens dentro do campo da cultura e das artes, voltado para as áreas Social, da Saúde e da Educação da Terapia Ocupacional. Eu vou acionando as abordagens diante da necessidade de cada pessoa ou grupo social que se aproximam e necessitam do meu suporte técnico. A Terapia Ocupacional está dentro de um campo das ciências muito importante para a sobrevivência das nossas populações. Eu trabalho no Centro Especializado em Reabilitação (CERII) Apae-Maceió, com crianças e adolescentes e também faço parte do Laboratório Metuia Núcleo UFPB/UNCISAL que está dentro de uma Rede Nacional que se estrutura através de práticas e teorias da Terapia Ocupacional Social no Brasil.

O artista em ação em uma escola de Maceió, AL, onde foi homenageado e realizou oficinas com as crianças. Foto: divulgação.

Eu também atuo na gestão da Associação Brasileira de Terapeutas Ocupacionais regional Alagoas (ABRATO-AL) e colaboro com a Associação Cultural de Travestis e Transexuais (ACTTRANS), pesquisando e dando suporte à população trans de Alagoas desde 2015. Todas essas frentes de trabalho estão diretamente ligadas em mim, assim como o meu trabalho artístico também, não tenho como pensar meu trabalho de forma técnica e ética sem pensar em política e arte.

Não tenho como pensar em meu trabalho artístico sem pensar em política, tudo está intensamente ligado em minha vida. Logo, as minhas obras são reflexo do que eu vivencio no meu cotidiano em casa, na rua ou no trabalho. Quando eu falo sobre os Poderes humanos é tudo o que eu consigo viver, nas relações com as pessoas que estão ao meu redor, quando eu faço parte da vida delas e elas fazem parte da minha vida.