A curadora Elidayana Alexandrino. Foto: Elidiane Alexandrino/Divulgação

CONVERSA COM CURADORES: ELIDAYANA ALEXANDRINO

por Luciara Ribeiro

31 de maio de 2021

ENTREVISTA
Curadoria

A curadora Elidayana Alexandrino. Foto: Elidiane Alexandrino/Divulgação

Chegamos a nossa quinta entrevista da série Conversa com Curadores. Neste mês, conversamos com Elidayana Alexandrino, curadora, artista, arte-educadora e pesquisadora baseada em Suzano, região do Alto Tietê, SP. Com trabalhos desenvolvidos em rede, com propostas educativas democráticas e participativas e curadorias colaborativas, Alexandrino propõe questionamentos às dimensões sociais que marcam nossas vidas e as artes. No cruzamento com sua pesquisa artística, a curadora nos provoca a despertarmos nossos olhares para leituras críticas e atenciosos das imagens. A entrevista integra a pesquisa Mapeamento de curadoras, curadores negras, negros e indígenas que pode ser acessada aqui.

Luciara Ribeiro: Como surgiu o seu desejo pela curadoria, e como você tem construído a sua trajetória no campo?

Elidayana Alexandrino: Escolhi estudar Artes Plásticas pelo desejo de trabalhar em museus, durante o período da graduação frequentei diversos, vivia nas exposições. Como visitante, aquele ambiente me encantava, mas antes mesmo de ter acesso ao ensino superior, na adolescência colecionava reportagens de jornais e revistas sobre exposições de arte, hoje observo como ter acesso a essas informações foi importante. Ao concluir o curso, consegui uma oportunidade na Caixa Cultural e não parei mais, desde 2012 estou envolvida com mediação cultural, trabalhei em muitas exposições desenvolvendo visitas educativas em museus e centros culturais de São Paulo e também fora do estado, essas experiências me possibilitaram acompanhar os bastidores das exposições, aprendi bastante durante todo esse processo, mas também desenvolvi um olhar crítico. Em algumas exposições observava que as curadorias não eram acessíveis, o público ficava perdido e minha função era também refletir sobre essas questões, então fiz alguns cursos que me despertaram a vontade de criar projetos curatoriais. Em 2019, participei da Semana da Consciência Negra e Diversidade no Instituto Federal de Itaquaquecetuba, esse evento me encorajou a colocar no mundo um projeto que estava há muito tempo só no campo das ideias, montei no refeitório uma exposição da série fotográfica Na terra em que tudo dá você tem fome de quê?. Além da exposição, fiz uma oficina para os alunos do ensino médio sobre memória e ancestralidade na arte contemporânea. Em 2020, Aline Baliberdin, coordenadora de Artes Plásticas da Secretária de Cultura de Suzano, me convidou para fazer junto com ela a curadoria de uma exposição coletiva de artistas mulheres, reunimos 30 artistas, ocupamos todo o Centro de Educação e Cultura Francisco Carlos Moriconi. A partir dessa experiência, encarei outros desafios. Devido a pandemia busquei parceiras com o Projeto Mulher Artista em Rede, fizemos duas exposições virtuais no Instagram e este ano fiz a curadoria da exposição Criação, também em Suzano. Percebo a curadoria como uma ação educativa que só faz sentido quando encontra as pessoas e possibilita diálogos, antes de tudo sou uma educadora que acredita muito no poder transformador da arte.

Na foto, algumas artistas que participaram da exposição “Corpo que é meu outro”, com curadoria de Elidayana Alexandrino e Aline Baliberdin. Da esquerda para direita, grupo que está em pé: Ruana Castro, Tamara Faifman, Lais Faifman, Elidiane Alexandrino, Kelly Ramos, Cibele Alves, Kelcine Campos, Thais Baliberdin, Aline Baliberdin, Landy Freitas, Tais Oliveira, Jana Santos com sua filha Isadora, Raylander Mártis dos Anjos e Mariana Rodrigues. Grupo que está sentado, da esquerda para direita: Diana Proença Modena, Jamili Galvão com sua filha Manuela, Elidayana Alexandrino, Sabrina Denise Ribeiro, Raquel Ingrid, Heloiza Soler, Elenice dos Santos Lourenço, Vanessa Rigo, Rosi Bomfim e Mirtilo (Gabriela Rocha). 06 de março de 2020. Foto: Divulgação

LR: Com o projeto “Narrativas que se encontram” você realiza um estudo de imagens, composição, formas e relações. Como tem sido o desenvolvimento desse projeto? Como você vê a relação dela com a sua prática curatorial?

EA: Comecei o projeto Narrativas que se encontram em 2015, são imagens que dialogam entre si, das mais diversas expressões artísticas, reunidas pela minha memória, crio dípticos e trípticos, nesse processo aproximo tempos, culturas e realidades diversas. Percebo essa pesquisa como um grande álbum de família de imagens, que hoje é um arquivo vivo com mais de 600 imagens que podem ser vistas no Facebook e Instagram, compartilho nas redes sociais para que cheguem a outros olhos, principalmente agora no momento de pandemia. De certo modo, as redes sociais funcionam como galerias virtuais. No início o que despertava meu interesse eram as relações de semelhanças, as composições e como a história da arte consolidou algumas ideias por meio do cânone, depois de todos esses anos vejo essa pesquisa como parte da minha vida, as imagens revelam muito sobre mim, mas também sobre a sociedade em que vivemos. Antes não entendia essa pesquisa nem como artística e nem ligada ao campo da curadoria, mas ao longo do tempo comecei a questionar por que certas imagens permanecem. Ao refletir, percebi que elas estavam me pedindo algo, me dei conta que elas estavam me pedindo justiça, me convocando a narrar outras histórias, saí do macro para o micro, entendi que precisava dar um “corpo” para elas, então como desdobramento criei, em 2019, o Laboratório de escuta de imagens, imprimi cerca de 100 em papel fotográfico no tamanho 10×15 e levei essa proposta para escolas e museus. Não quis expor apenas, convidei as pessoas a se aproximarem das imagens e criar elas mesmas curadorias, utilizando critérios estabelecidos pelo coletivo. Vejo essa minha pesquisa como uma encruzilhada de imagens; a encruzilhada é o lugar dos encontros e mantenho essa ideia na prática curatorial.

Laboratório de escuta das imagens na Pinacoteca de São Paulo, São Paulo, Brasil. Foto: Divulgação

LR: Um dos temas presentes em suas curadorias é o feminismo. Como você tem trabalhado essa relação?

EA: Em 2018, fiz o Curso de Promotoras Legais Populares que trouxe noções sobre direitos humanos, violência doméstica, violência obstétrica, direitos reprodutivos, entre outros temas que envolvem o feminismo, essa experiência foi muito significativa porque já desenvolvia pesquisas sobre mulheres artistas e representações da figura feminina na história da arte. Fui me aprofundando cada vez mais no assunto. Em 2019, estudei literatura de autoria feminina, meu interesse na época era ler mais mulheres, percebi a necessidade de enfrentar essa sociedade marcada pelo machismo e a arte tem sido uma forma de busca pela equidade. Todas essas pesquisas me despertaram para ações práticas com outras pesquisadoras e educadoras, inclusive junto com Cristina Susigan escrevi um artigo sobre exposições de artistas mulheres e desigualdade de gênero nos acervos museológicos. Ao receber o convite para fazer a curadoria de uma mostra coletiva de mulheres artistas em março de 2020, no Centro de Educação e Cultura Francisco Carlos Moriconi, em Suzano, vi a oportunidade de realizar um projeto vinculado às minhas pesquisas e práticas educativas, portanto convidei artistas de Suzano e da grande São Paulo que apresentam em suas produções questões feministas, de direitos humanos e luta antirracista. Mulheres de diferentes corpos, idades, trajetórias, formações. A mostra apresentou pinturas, desenhos, bordados, fotografias, performances e instalações, reuniu obras que discutem o corpo em suas diversas formas de expressão. O corpo foi o tema principal, por isso o título Corpo que é meu outro. A exposição foi tão marcante para a história da cidade porque houve muitos visitantes na abertura (06/03/2020), munícipes que nunca tinham entrado no centro cultural foram pela primeira vez para prestigiar as artistas, ver o trabalho das filhas, netas, minha vó nunca tinha visitado uma exposição de arte e aos 79 ela pode ter essa experiência, além do público que veio de outras cidades. Esse deslocamento também foi fundamental para mostrar outras realidades fora do circuito convencional das exposições de arte. Infelizmente, devido a pandemia, a exposição ficou aberta apenas uma semana, o desdobramento surgiu a partir de uma parceria com o Projeto Mulher Artista em Rede, no Instagram fizemos a versão virtual com imagens, vídeos com depoimentos das artistas e uma live. Um ano se passou e fui novamente chamada para pensar outro projeto envolvendo mulheres artistas, então pensei na criação como um ato de resistência. A exposição intitulada Criação teve como foco o processo criativo de 12 mulheres artistas da região do Alto Tietê (SP), ocorreu durante o mês de março deste ano. Antes da montagem, houve uma ameaça dela não acontecer, setores conservadores ligados à Prefeitura de Suzano censuraram o cartaz da exposição e três fotografias minhas, essa atitude demonstra que estamos num momento político delicado no que diz respeito a liberdade de expressão e, principalmente, por se tratar de uma exposição feita por mulheres com obras que discutem a vida, a natureza e a emancipação do corpo. Depois de algumas negociações, a exposição foi montada, o projeto se manteve com todas as obras, mas novamente não houve visitas presenciais devido o risco de contaminação por conta do coronavírus, a solução foi uma versão virtual que pode ser vista no site da Secretaria de Cultura de Suzano e parte da programação está no Instagram Mulher Artista em Rede, uma parceria importante para a democratização e valorização das artistas mulheres neste momento tão conturbado em que vivemos. As questões ligadas ao feminismo me movem na busca por uma sociedade melhor e mais justa, por isso continuo nessa luta.

Série “Na terra em que tudo dá você tem fome de que?”, de Elidayana Alexandrino – Exposição “Criação”. Foto: Divulgação

LR: Um aspecto presente na carreira de muitos curadores negros e negras é o desenvolvimento de uma atuação múltipla, ou seja, atuando como curador, artista, pesquisador, educador, entre outras áreas. Como você vê isso? Essa multiplicidade também aparece em sua atuação?

EA: Curadoras e curadores negros estão mudando o modo de fazer exposições no Brasil justamente por essa atuação múltipla. Esses profissionais vêm de formação, lugares e realidades diversas, nem sempre se formam e vão direto para a área da curadoria, muitos passam por outras experiências, são curadores independentes, são a própria “instituição”, por um lado é bom e por outro nem tanto, porque isso evidencia como o racismo estrutural opera, precisamos contar nos dedos quantas curadoras e curadores negros atuam nos principais museus do Brasl, então o jeito é criar as  oportunidades, essa multiplicidade significa uma forma de sobreviver. No meu caso também me percebo dentro dessa pluralidade. A última curadoria que fiz me incluí como artista e educadora, expus meus trabalhos e desenvolvi o material educativo. Penso que uma exposição se desdobra ao alcançar o público, então como artista crio para partilhar, como curadora penso na relação entre as obras e as pessoas e não vejo o projeto curatorial separado da educação, está tudo conectado.

Vista da exposição “Criação”, com curadoria de Elidayana Alexandrino. Foto: Divulgação

LR: Sua atuação tem sido, majoritariamente, na região do Alto Tietê. Como você observa o cenário artístico dessa região? E o curatorial?

EA: Há muitos artistas na região do Alto Tietê que trabalham com diversas linguagens, desde o teatro a arte urbana, é na periferia que se encontra a maioria dos artistas e agitadores culturais, que podemos também nomear de curadores, porque são essas pessoas que criam ações como festivais, saraus, feiras de arte e literárias. Também são educadores, comprometidos com ações sociais, essa multiplicidade é o que movimenta a cultura dessa região e cria uma aproximação com os diferentes públicos.

LR: Desde meados dos anos 90, uma série de eventos têm marcado o sistema das artes com debates e propostas decoloniais, revisionistas e críticas. Os artistas, curadores e teóricos não brancos têm sido os grandes contribuidores para essa mudança de paradigmas e da hegemonia branca-elitista-europeia-judaíco-cristã no poder de definição dos rumos das artes. Como você vê esse momento?

EA: Estamos numa disputa de narrativas, acredito que todas as discussões que vêm acontecendo desde os anos 90 são significativas para uma mudança radical, mas para isso ainda temos que trabalhar muito. Instituições como universidades e museus não podem mais sustentar o discurso hegemônico de forma natural. No caso do Brasil, quando pessoas negras, indígenas, periféricas e pessoas com deficiência acessaram as universidades públicas e privadas, começaram a questionar essa estrutura excludente, então o cenário é de renovação, porém observo que há uma apropriação no que diz respeito às propostas decoloniais, ou seja, enquanto as instituições não mudarem seu modos operandi e seu CORPO de funcionários o risco é a reiteração de discursos limitados. Como diz Silvio Almeida: “precisamos de uma nova economia dos afetos. Arte, literatura, cinema, teatro, enfim, precisamos de uma cultura que se oponha ao racismo, que coloque em seu centro produções em que a nossa humanidade caiba”. A arte não pode ser definida pelo “sujeito universal”, são mais de 500 anos de narrativa falsa, as práticas decoloniais abordam não só as histórias que não foram contadas, mas possibilita a germinação de algo nunca visto antes.

Fotografias de Kelly Ramos na exposição “Corpo que é meu outro”, com curadoria de Elidayana Alexandrino. Foto: Divulgação

LR: Você poderia comentar um pouco sobre os seus projetos futuros?

EA: A meta agora é sobreviver, a pandemia me afetou muito ao ponto de eu repensar inclusive o que é o futuro, mas meu desejo é continuar desenvolvendo trabalhos em que envolvam arte, educação e curadoria, continuar criando ações em busca de equidade e justiça social.

LR: Você gostaria de acrescentar mais algum assunto ou comentar algum ponto?

EA: Agradeço ao Projeto Afro, a Luciara Ribeiro e a todas as pessoas que vêm criando ações, construindo diálogos com propostas inovadoras. Nossa maior afronta ao sistema opressor é continuarmos sonhando e sonhar é a nossa maior transgressão.

 

Elidayana Alexandrino nasceu em 1986 em Coremas (PB), atualmente vive e trabalha em Suzano (SP). É artista visual, educadora e pesquisadora. Graduada em Artes Plásticas, licenciada em Educação Artística (UBC). Utiliza a fotografia como forma de expressão, desenvolve pesquisas em que relaciona imagem, memória e cotidiano, também investiga a relação entre corpo, retrato e natureza. Desde 2012 atua em museus e centros culturais, desenvolvendo visitas educativas, oficinas e curadorias.