Aceita?, 2014-, de Moisés Patrício (detalhe). Foto: Reprodução

NEGRESTUDO: MAPEAMENTO DE ARTISTAS REPRESENTADES PELAS GALERIAS DE ARTE DE SÃO PAULO

por Alan Ariê

8 de outubro de 2020

ARTIGO
Galerias

Aceita?, 2014-, de Moisés Patrício (detalhe). Foto: Reprodução

Estímulo inicial do Negrestudo (@negres.tudo)

Muitos debates sobre lutas raciais afloraram nos últimos dois meses, seja por conta de violência policial, da abismal diferença de mortalidade de Covid-19 entre pessoas negras e não negras, ou da consequente visibilidade gerada às figuras públicas negras que falam sobre negritude depois que a internet foi tomada por movimentos proclamados antirracistas. No território das artes visuais, tivemos demissões em massa dentro de diversos museus e instituições, dentre essas grande parte foram de pessoas negras, fazendo com que a quantia de trabalhadores da cultura negres empregades, que antes já era escassa, diminuísse ainda mais. Consequentemente, viu-se um insurgimento, ainda mais notório do que antes, das mais diversas práticas artísticas decoloniais, exposições virtuais, pesquisas que propõem maneiras de gerar a reparação institucional, questionamentos públicos sobre a ausência de pessoas negras aprovadas em editais de arte e mesas de discussão sobre o assunto.

Alan Ariê, 24, atua como artista, curador, educador, pesquisador e produtor. Idealizador do projeto Negrestudo, também está no mapeamento do Projeto Afro. Foto: Divulgação

Frente a esse cenário desequalizado das artes, o projeto Negrestudo levanta questões: Quais mudanças efetivas podem ser geradas dentro das instituições de arte em pró da reparação racial? Pessoas negras, indígenas, trans e mulheres cis só entram em museus em grande quantidade quando existem questões tratando de suas ausências? A partir dessas reflexões, notou-se a necessidade de fazer um mapeamento que explicitasse esta iniquidade. Para um primeiro momento, foi escolhido o mercado de galerias como ponto central de análise. Foram reunidos dados quantitativos e qualitativos sobre todes artistas de 24 galerias de arte da cidade de São Paulo no segundo semestre de 2019 (a pesquisa foi realizada entre os meses de agosto e dezembro). Alguns dados podem estar desatualizados, ficamos à disposição para diálogo com todas as galerias e também para eventuais necessidades de atualização dos dados pertinentes ao período.

Metodologia de pesquisa

Como ponto central da pesquisa, a relação de artistas de 24 das galerias de arte da cidade de São Paulo foram os primeiros dados a serem considerados, em um total de 619 nomes listados em um conjunto de tabelas: uma com informações individuais de cada galeria com as especificações de cada artista; uma com as especificações gerais quanto ao local de nascimento; e uma final, com os dados integrais de artistas de todas as 24 galerias. A primeira etapa teve início em junho de 2019, onde foi montada e enviada, para os e-mails disponibilizados nos respectivos sites das galerias, uma tabela com os itens: nome, gênero, raça e local de nascimento de todes artistes representades. Receberam esse e-mail as galerias: Andrea Rehder, Baró Galeria, Casa Triângulo, Central Galeria, Dan Galeria, Galeria Fortes D’aloia e Gabriel, , Galeria Janaína Torres, Galeria Jaqueline Martins, Galeria Leme, Galeria Luciana Brito, Galeria Luís Maluf, Galeria Luisa Strina, Galeria Lume, Galeria Marcelo Guarnieri, Galeria Marília Razuk, Galeria Mendes Wood, Galeria Millan, Galeria Nara Roesler, Sé Galeria, SIM Galeria, Galeria Superfície, Galeria Vermelho, Galeria Kogan Amaro e Zipper Galeria. Foi pedido para que esta tabela fosse preenchida com os dados pertinentes de todes artistas que são representades por cada uma.

Alguns e-mails foram respondidos ao longo de duas semanas. Passado esse tempo, foi enviado um novo e-mail para aquelas galerias que ainda não haviam respondido. Entre essas respostas, tiveram algumas com a tabela preenchida como pedido, outras fizeram convites para conversas nas galerias (seguidas do preenchimento da tabela) e algumas se recusaram a participar da pesquisa. As galerias que responderam à pesquisa foram: Lume, Marilia Razuk, Dan Galeria, Central Galeria, Baró, Superfície, Luis Maluf, Janaina Torres, Marcelo Guarnieri e Jaqueline Martins. As que se recusaram a responder a pesquisa foram a Galeria Kogan Amaro e a Galeria Leme. A Galeria Nara Roesler respondeu avisando que iria fazer a coleta dos dados, mas nunca retornou com os mesmos. As outras nunca responderam o e-mail.

A segunda etapa da pesquisa – coleta de dados manualmente – teve início após a constatação de que algumas galerias não iriam responder com a tabela preenchida. Após tomar conhecimento de quais artistas eram representados por quem, o presente pesquisador pesquisou sobre as obras, a biografia, as imagens e o local de nascimento de cada uma das artistas através de seus sites pessoais e o da galeria que as representava. Foi utilizado este método devido ao fato de ser o mais ágil. A partir dessa investigação, chegou-se à conclusão de qual era o gênero e a raça de cada artista. Entende-se aqui que a eficácia dos apontamentos para cada indivíduo pode ter uma margem de erro mínima. Também é importante pontuar aqui a consciência de que a coleta manual não foi realizada através do método da autodeclaração, a qual muitos tratam como formato mais preciso quanto à identidade cultural – porém, além de entendermos que este método aplicado nesta pesquisa seria exaustivo e possivelmente invasivo, também consideramos os inúmeros recentes episódios de fraude em concursos que exigiam a autodeclaração de PPI. Assim como não sabemos quais das galerias que responderam o questionário foram em busca de uma autodeclaração individual de todes suas artistes representades ou se utilizaram outro método para compor a tabela. Destas, apenas temos a palavra da trabalhadora que intermediou o contato entre o presente pesquisador e as informações pertencentes tanto às artistes quanto à galeria.

Após colhido e organizado todos os dados que a pesquisa se propôs a obter, as tabelas e suas respectivas listas foram criadas. Nestas, em cada uma das galerias pesquisadas contém a unidade e as porcentagens respectivas sobre o gênero, a raça e o local de nascimento das artistas, seguidas de uma lista de todas elas somadas. A partir dos valores totais obtidos, se calculou a porcentagem de cada grupo representado e/ou ausente.

Fonte: Negrestudo.

A divulgação desses dados foi pensada para diferentes mídias: foram produzidos infográficos que posteriormente vieram a ser publicados em uma conta criada no Instagram para o projeto. Estes mesmos infográficos seriam adaptados em formato de zine e distribuídas para todas as galerias de arte citadas nesta pesquisa, além de também enviadas para alguns museus de arte da cidade de São Paulo, contudo, devido à pandemia do Covid-19, entendemos que não fazia sentido manter o plano de produção da publicação física. Foi feito um gráfico que reúne os dados combinados sobre raça e gênero; um gráfico que fala sobre a disparidade racial; um gráfico que fala sobre a disparidade geral de gênero; um gráfico que fala sobre a disparidade dos locais de nascimento; e gráficos que entrecruzam os dados em cada um dos segmentos como, por exemplo, a disparidade racial entre as mulheres cis, ou a disparidade de gênero entre as pessoas brancas, etc. Todas as tabelas se manterão disponíveis para consulta livre na web pelo link.

Pormenor de uma das tabelas onde pode se verificar como foram organizados os dados. Cada galeria é representada pela linha vinho, enquanto cada artista está representado em uma linha azul. Fonte: Tabela consolidada do projeto Negrestudo.

Pormenor de uma das tabelas onde pode se verificar como foram organizados os dados. Cada galeria é representada pela linha vinho, enquanto cada artista está representado em uma linha azul. Fonte: Tabela consolidada do projeto Negrestudo. É de nosso interesse deixar os procedimentos realizados para a estruturação desta pesquisa em plena evidência pois não pretendemos usar nenhum recurso que os maquila. O discurso que é construído aqui não carrega consigo uma verdade totalizante, mas um caráter processual. Ao mesmo tempo que há o manejo da construção desse projeto com uma metodologia científica, também há um tensionamento real e objetivo sobre as questões que ele aborda. A partir destas tabelas outros processos artísticos já estão a ser desenvolvidos e deixo em aberto para que haja a possibilidade de continuidade das investigações sobre o mesmo objeto de estudo. O planejamento do projeto visa que em sua segunda edição haja criação de um site que atualize semestralmente esses dados.

O mercado da arte e a exclusão de pessoas negras, indígenas e trans

A partir dos dados coletados, podemos observar o tamanho da exclusão existente para alguns grupos dentro do circuito profissional das artes. Contudo, fica evidente que a questão mais alarmante corresponde à predominância de pessoas brancas. Dos 619 nomes levantados pela pesquisa, apenas 46 pessoas não são brancas. Destas, 27 são pessoas negras – 23 homens e apenas 4 mulheres; 14 são pessoas asiáticas – 9 homens  e 5 mulheres; 4 são pardas – todos homens; e apenas 1 pessoa é indígena, no caso uma artista mexicana chamada Mariana Castillo Deball, ou seja, não temos indígenas nascidos no Brasil na lista.

Fonte: Negrestudo.

Também é de suma importância citar que não havia nenhuma pessoa transgênera representada pelas galerias de arte pesquisadas no período da coleta. Nos grupos de não brancos já fica dada a maioria de homens, mas isso fica ainda mais evidente quando comparamos os dados gerais onde contamos com 426 homens cis e 196 mulheres cis. As mulheres brancas são o segundo número que aparece em maior quantidade, com 183 artistas. É ainda mais gritante a diferença racial entre as mulheres, pois as 4 mulheres cis negras representam somente 2,07% entre todas as mulheres, enquanto a única indígena presente representa 0,51%. Entre os homens por mais que a diferença seja levemente menor, ainda assim é enorme: os homens cis negros representam 5,39%, enquanto não há homens indígenas nas galerias de arte de São Paulo.

Quanto ao local de nascimento era de se esperar que as galerias de arte de São Paulo tivessem mais artistas da cidade e do Estado em seu circuito e isso se confirmou. O que chama atenção aqui é a quantidade de europeus, que superam em número todas as regiões brasileiras com exceção do Sudeste, além de todos os outros continentes da Terra; e o de estadunidenses, cujo número de artistas só não supera os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Rio Grande do Sul, além da Argentina. O estado de São Paulo é o que mais tem artistas com 203 (32,79%), sua capital se destaca tendo 153 (24,71%) enquanto todas as outras cidades juntas têm 50 (8,07%). No Brasil, a região Sudeste tem 326 (52,66%) artistas, seguida de longe pelo Nordeste com 39 (6,30%), pelo Sul com 38 (6,13%), pelo Distrito Federal com 8 (1,29%), pela região Norte com 7 (1,13%) e pelo Centro-Oeste com 6 (0,96%). Fora do Brasil, como dito anteriormente, o continente mais representado é a Europa, com 87 artistas (14,05%), seguido pela América do Sul, com 53 (8,56%), América do Norte, com 30 (4,84%), Ásia com 15 (2,42%), América Central com 9 (1,45%) e o continente africano com apenas 1 artista (0,16%), a nigeriana Otobong Nkanga. Alguns estados brasileiros não tiveram artistas representadas pelas galerias, estes são: Acre – Amapá – Amazonas – Roraima – Rondônia – Tocantins – Piauí – Mato Grosso.

Fonte: Negrestudo.

Listamos abaixo todes artistes negres da pesquisa:  

Emanoel Araújo, Helô Sanvoy, Eneida Sanches, CL Salvaro, Camila Rocha, Nunca, Samuel de Saboia, Jaime Lauriano, Vini Parisi, Crânio, Marepe, Alvaro Barrington, Antonio Obá, Deyson Gilbert, Otobong Nkanga, Paulo Nazareth, Rubem Valentim, Sônia Gomes, Alexandre Arrechea, Isaac Julien, René Francisco, Dalton Paula e Rafael RG.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE do segundo semestre de 2019, 57,05% da população brasileira é afrodescendente e a classe média negra já existe há mais de sete décadas, o que nos faz questionar quais são os motivos de uma tamanha falta de negres dentro do mercado de galerias de arte de São Paulo. A pesquisa também enfatiza que nos últimos anos houve um importante aumento na presença de estudantes PPI (Pretos, Pardos e Indígenas) dentro de universidades públicas e privadas, gerando um maior número de possíveis profissionais da cultura negres formades pelos cursos de artes visuais no país, dentre estes, muitos que visam uma carreira como artista. Esse aumento foi muito estimulado pela política de cotas raciais que reserva vagas para estudantes de escola pública e PPI, cujo dá seus primeiros passos no começo dos anos 2000 e tem sua consolidação com a lei nº 12.711  em 2012. Assim, surge outra pergunta: será que a presença destes estudantes negres que entraram na universidade estão tendo uma proporcional inclusão no mercado de trabalho e no circuito institucional de arte depois de formades?

Mulheres cis? Brancas, porém apenas um terço da quantidade dos homens cis. Em 23 das 24 galerias havia mais homens cis do que mulheres cis. Apenas a Galeria Superfície aparece equilibrada, com 6 mulheres cis e 6 homens cis em seu grupo. Em todas as 24 galerias pesquisadas havia mais mulheres cis brancas do que cis negras. Sendo mais específico, em apenas 3 galerias haviam mulheres cis negras (2 na Mendes Wood, 1 na Andrea Rehder e 1 na Kogan Amaro) e apenas 1 indígena (Mendes Wood). Também é importante ressaltar aqui que as mulheres cis brancas aparecem em número oito vezes maior do que os homens cis negros (183 para 23). Abaixo listamos todas as mulheres representadas pelas galerias pesquisadas, com as mulheres negras e indígenas assinaladas em negrito:

Andrea Cypriano, Katia Canton, Alessandra Rehder, Cristina Ataíde, Eneida Sanches, Rita Gaspar Vieira, Sandra Lapage, Tatiana Arzamasova (Integrante do grupo AES+F), Amanda Mei, Courtney Smith, Elena Damiani, Maria Lynch, Maria Nepomuceno, Zhanna Kadirova, Joana Vasconcelos, Juliana Cerqueira Leite, Manuela Ribadeneira, Maricia Xavier, Mariana Palma, Sandra Cinto, Vânia Mignone, Anna Israel, Gabriela Mureb, Gisele Camargo, Mariana Manhães, Simone Cupello, Laura Miranda, Raquel Kogan, Adriana Varejão, Agnieszka Kurant, Bárbara Wagner, Beatriz Milhazes, Erika Verzutti, Gerben Mulder, Jac Leirner, Janaina Tschape, Leda Catunda, Lucia Laguna, Marina Rheingantz, Marine Hugonnier, Sara Ramo, Sergej Jensen, Sarah Lannan (artista do duo Simon Evans™), Valeska Soares, Ana Mazzei, Charbel-joseph H. Boutros, Letícia Parente, Lydia Okumura, Maria Noujaim, Martha Araújo, Regina Vater, Viola Yesiltaç, Ana Vitória Mussi, Anaisa Franco, Amalia Giacomini, Denise Milan, Renata Egreja, Alice Shintani, Amelia Toledo, Ana Paula Oliveira, Ana Sario, Angélica Teuta, Flávia Ribeiro, Gabriela Machado, Gerty Saruê, Laura Vinci, LIUBA, Luciana Ohira, Mariannita Luzzati, Niobe Xandó, Paola Junqueira, Silvia Velludo, Sonia Andrade, Tomie Ohtake, Ana Dias Batista, Johanna Calle, Lucia Mindlin Loeb, Mabe Bethonico, Maria Laet, Mariana Serri, Raquel Garbelotti, Renata Tassinari, Ana Prata, Lenora de Barros, Regina Parra, Sandra Antunes Ramos, Tatiana Blass, Débora Bolsoni, Yasmin Guimarães, Betty Leirner, Neide Sá, Anna Costa e Silva, Guga Szabzon, Ana Maria Tavares, Carla Zaccagnini, Carmela Gross, Chiara Banfi, Clara Ianni, Claudia Andujar, Dora Longo Bahia, Gabriela Albergaria, Lia Chaia, Marilá Dardot, Motta (do duo Motta e Lima), Rosângela Rennó, Tania Candiani, Helena Martins-Costa, Kika Levy, Kitty Paranaguá, Luciana Magno, Marcia Thompson, Renata Pelegrini, Sandra Mazzini, Talitha Rossi, Camila Rocha, Estela Sokol, Isabelle Borges, Katia Salvany, Luisa Almeida, Marcia Pastore, Nazareth Pacheco, Patricia Carparelli, Paula Costa, Ana Elisa Egreja, Candida Höfer, Jessica Mein, Marcia de Moraes, Sandra Gamarra, Vivian Caccuri, Fabiana de Barros, Liliana Porter, Paula Garcia, Regina Silveira, Rochelle Costi, Gasediel, Marie Luce Nadal, Leonor Antunes, Fernanda Gomes, Magdalena Jitrik, Luisa Lambri, Laura Lima, Renata Lucas, Anna Maria Maiolino, Lygia Pape, Nicolás Paris, Marina Saleme, Clarissa Tossin, Anna Bella Geiger, Dadamaino, Francesca Woodman, Iulia Nistor, Kishio Suga, Letícia Ramos, Mariana Castillo Deball, Marina Perez Simão, Naufus Ramírez-Figueroa, Nina Canell, Otobong Nkanga, Paloma Bosquê, Patricia Leite, Sofia Borges, Solange Pessoa, Sonia Gomes, Alice Miceli, Berna Reale, Brígida Baltar, Cristina Canale, Karin Lambrecht, Laura Vinci, Lucia Koch, Melanie Smith, Virginia de Medeiros, Denise Alves-Rodrigues, Maria Montero, Rebecca Sharp, Eliane Prolik, Julia Kater, Juliana Stein, Lais Myrrha, Marina Weffort, Adriana Duque, Ana Holck, Camila Soato, Camille Kachani, Carolina Ponte, Celina Portella, Flávia Junqueira, Graciela Sacco, Janaina Mello Landini, Katia Maciel, Monica Piloni e Romy Pocztaruk.

A galeria que apresenta a porcentagem mais baixa de homens cis brancos é a Mendes Wood, com 41,66%, e é também a que apresenta percentual mais alto de homens cis negros e de mulheres cis negras (13,88% e 5,55%). Em contraponto, a que apresenta porcentagem mais alta de homens cis brancos é a Galeria Luciana Brito, com 82,75%. As galerias que não fecharam acordo com nenhuma pessoa preta para seu grupo de artistas representados são: Baró – Casa Triângulo – Dan Galeria – Fortes D’Aloia e Gabriel – Lume – Marcelo Guarnieri – Marília Razuk – Millan – Superfície – Vermelho – Janaína Torres – Luciana Brito – SIM – Zipper.

 

Fonte: Negrestudo.

Frente a esses dados que demonstram tamanha iniquidade dentro do circuito, a artista Aline Motta, que não é representada por nenhuma galeria, aponta que por vezes “o problema é a falta de visão e engajamento dos seus agentes, na sua maioria, homens e brancos. Às vezes acho que eles têm receio de perder o protagonismo e o prestígio de ditar as regras do jogo, mesmo que isso implique em, daqui alguns anos, que sejam vistos como diretores retrógrados de um museu que impediram que a carreira de toda uma geração pudesse florescer. Eles têm todos os instrumentos disponíveis para fazer com que o discurso da “diversidade” se torne verdadeiramente prático. Resta saber se irão abrir mão de seus lugares já tão bem estabelecidos e da crença de que o ocupam por “mérito””, pontua a artista.

Após o período da pesquisa, foi inaugurada a Diáspora Galeria que se propõe, justamente, questionar a falta de representatividade de artistas negres e asiáticos no mercado da arte. Alex Tso, fundador, avalia o atual cenário: “é preciso tomar um cuidado ao achar que esta luta é um movimento exclusivamente dos dias atuais. Muitas pessoas estão achando que essa é uma onda passageira, um hype da nossa contemporaneidade. É um erro grave. (…) Ainda que grandes museus ou mesmo galerias de arte estejam incluindo discussões sobre raça e gênero, precisamos observar, no topo da cadeia produtiva, quem são as pessoas que estão no poder? Acho que o movimento de transformação já começou no mercado de arte, e não terá mais volta. Agora, além de artistas, precisamos de curadories, galeristes, crítiques, merchands, colecionadories, educadories, agentes culturais e toda uma rede produtiva também racializada – especialmente em cargos de gestão e decisão. (…) Os questionamentos e enfrentamentos que surgem sobre esse tema, e que vêm ganhando força na arte contemporânea, só serão disruptivamente tensionados se entendermos que o protagonismo deve ser integral, por parte de artistas e sujeitos racializados se articulando e fortalecendo suas redes, para não mais depender de concessões pontuais de uma branquitude que ainda concentra – e muito – poder e influência no cenário artístico nacional”, considera.

Aceita?, 2014-, de Moisés Patrício. Foto: Reprodução

Para que possamos construir uma mudança efetiva dentro do circuito brasileiro das artes visuais, é necessário primeiro que todes agentes busquem consciência sobre os locais sociais que ocupam frente à sociedade e às diferenças em relação a todes outres. A partir disso, passem a trabalhar em prol da redistribuição dos privilégios concedidos às pessoas brancas cis, majoritariamente homens, integrando ativamente a luta em direção a uma sociedade com menos desigualdades. Que fique nítido que essa luta não é apenas de pessoas racializadas. É necessário que se tenham ações diretas, permanentes e contínuas por parte de todes. Não dá mais para a branquitude ficar apenas no campo do discurso engajado sentada no conforto de suas cadeiras.

Tabela com as 24 galerias de arte, o nome, gênero, raça e local de nascimento de cada artista aqui

Tabela com os dados sobre gênero e raça aqui

Tabela com o local de nascimento geral aqui

Tabela com o local de nascimento por galerias aqui

Clique aqui para conhecer mais sobre o artista Alan Ariê no mapeamento do Projeto Afro.